quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A Rua Morais Soares

Lisboa tem o raro encanto de conservar nichos onde se casam tradições lusas arcaicas com os costumes imigrados em Portugal. Desse encontro cultural, resultam ruas e lugares que são verdadeiros portais para dimensões singularmente preciosas pela sua identidade. Houve um tempo em que vivi numa rua lisboeta cuja identidade nascia, diariamente, da fusão de cada uma das gentes que a povoavam. Houve um tempo em que, todos os dias, me passeava numa das ruas lisboetas em que a multiculturalidade não era apenas um conceito discutido intelectualmente no distanciamento das mesas dos cafés, mas vivido na proximidade de cada esquina, de cada beco, de cada tasca. Houve um tempo em que me encantava com o sorriso pitoresco e enrugado da Rua Morais Soares, aquela que fica no Chile, como dizem os velhos e as velhas que pisam as calçadas de Lisboa como veteranos respeitosos de uma cidade que nem sempre lhes presta o devido tributo.

De todas as gentes com que, todos os dias, me cruzava, a que eu mais apreciava era a ave que, não sendo gente, assobiava como se de gente se tratasse. Espreitando da sua varanda alta o movimento rasteiro da rua, a ave, que nunca descobri de que espécie era, musicava a Morais Soares no seu jeito de ninfa citadina, qual solista de uma orquestra urbana. Junto ao seu prédio de esquina feito palco de espectáculo, eram poucos os que, por ali passando, ficavam indiferentes ao cantarolar da ave com jeitos de vedeta. Muitos sorriam. Outros, paravam, buscando a origem das cantigas que se intrusavam alegremente nas suas rotinas cinzentas. Todos os olhares têm um brilho particular. E a ave artista da Morais Soares era o que fazia com que o olhar daquela rua antiga brilhasse. Ainda hoje, lá está ela, cantando todos os dias na varanda e enchendo a rua e as suas gentes de uma tipicidade feérica irreproduzível.

Sei que a ave, um dia, morrerá, levando consigo uma parte da identidade da Rua Morais Soares. Mas na cidade onde o urbano e o rural se imiscuem um no outro distraidamente, enriquecendo-se em simultâneo, tenho a certeza de que, partindo a ave artista, surgirá uma nova especificidade na Rua Morais Soares que lhe reinventará a identidade de rua onde tudo e todos se fundem num todo harmónico e único no mundo. Pois rua igual à Morais Soares, tenho a certeza de que não existe.

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