quarta-feira, 23 de novembro de 2011

As palavras são como água

As palavras são como água. As palavras são como lagos plácidos, rios sinuosos, mares incertos. As palavras são como água. As palavras são como água lamacenta, sujas e escuras, infectas e doentes. Quando carregadas de tristeza e de dor, são poços, abismos que se abrem na terra e mergulham toda a esperança no desespero, no caos. Quando carregadas de ira, raiva, ódio, são como tormentas oceânicas, tempestades cuja fúria brada impiedosamente ao Destino e ao Acaso. As palavras são vis e dolorosas, são tiranas que ferem, matam, mentem. São glaciares pérfidos incapazes de amar e tomados pela frieza da solidão. As palavras são como água.

Há nas palavras um encanto etéreo, uma aura semelhante à que se espelha sobre as águas de um charco numa noite de intenso luar. As palavras são como água. Há nelas a suavidade das nascentes, a limpidez dos tímidos regatos dos bosques. Há nelas a pureza que trazem do ventre da Terra, a transparência e a frescura e a esperança de recém-nascidas. As palavras têm a força vibrante dos rios, da corrente destemida para jusante. Têm a brandura e a quietude dos lagos, sussurrando, segredando. As palavras têm a tenacidade das ondas e o suspiro profundo do oceano. São como as nuvens miradas pelo olhar fantasioso das crianças. São como a névoa enigmática e duvidosa, ocultas e estranhas. Ainda assim, têm a beleza da candura da neve nos meses de Inverno. As palavras são como água.

As palavras não são simples, são complexamente simples. São profundamente humanas, um misto do perfeito e do imperfeito, coerentes e incoerentes. As palavras são o encontro de um Eu com outro Eu, como a foz onde se unem rio e mar. Pois as palavras são como água. Sem elas, o humano seria menos humano. Sem elas, o que há de humano no homem não ficaria saciado. Pois só bebendo palavras consegue o homem saciar a sede do que o torna mais humano.

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