sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Comunidade

Todos os dias, esperava que anoitecesse à janela. Da sua torre de marfim, a mais alta de toda a aldeia, contemplava o sol que, serenamente, beijava a terra com o seu calor. Contemplava-o até desaparecer por completo, até a terra o esconder num abraço maternal e protector.

Era uma mulher bela, a mais bela da aldeia. Os seus olhos azuis eram como espelhos, reflectindo o brilho do desejo e da esperança de que homens e mulheres soubessem zelar uns pelos outros. Nos seus belos olhos, puros e inocentes, reflectia-se a esperança de que homens e mulheres, por fim, se tornassem guardiães da Humanidade. E contemplar o fim da tarde alimentava esse desejo, como se aquele sol acolhido carinhosamente por aquela terra se transfigurasse em todos os homens e mulheres do mundo sofregamente necessitados de um mero amparo.

"Aqueles que olham a miséria com indiferença são os mais miseráveis", escreveu Paulo Coelho. Pois a mulher de olhos azuis, todos os dias, depois de contemplar o entardecer à janela, descia da sua torre de marfim e saía pelas ruas iluminadas pelo luar. Com ela, levava cobertores e comida. E no olhar trazia o brilho do desejo e da esperança, tornando menos miseráveis algumas vidas e dando um verdadeiro sentido ao que chamam de comunidade.

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