sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A escritora

A mulher sentou-se à secretária para escrever, como fazia todos os dias. Fitou a caneta demoradamente. Tinha-lhe grande estima; não pelo valor da prata de que era feita, mas por quem lha oferecera. De soslaio, mirou o caderno amarelado que permanecia aberto, esperando pacientemente que lhe escrevessem. Tentou controlar o desejo de o rasgar, de desfazer todas as histórias que nele escrevera em incontáveis farrapos de papel. Mas imaginando o que sentiriam todas as vidas por si criadas ao verem o mundo onde viviam ruir apocalipticamente, aquietou-se, qual branda deusa.

De que serviria à escritora destruir todos os seus mundos de papel quando eram precisamente eles que a faziam sentir-se igual ao Criador?

1 comentário:

  1. fantástico! a ultima frase não poderia estar mais certa. adorei.

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