quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Memória de um baile

Estava no baile anual de Primavera, na casa da família mais importante da cidade. Fora convidado pelos senhores da casa. Lembro-me de um salão nobre, de uma casa faustosa e endinheirada, onde as mulheres exibiam jóias e vestidos, e os homens, empertigadamente, fingiam-se de mais ricos, de mais poderosos e de mais influentes do que realmente eram.

Procurando alhear-me da enfadonha representação a que assistia, olhei o centro do salão, onde dançavam os jovens da cidade. Tocava uma valsa. Nos tempos em que fora jovem como eles, sempre me alegrara dançar uma valsa. Naquela idade, não eram as representações enfadonhas do poder que me entretinham.

Recordo-me de ver um casal de namorados, de um casal que, em tempos, poderia ter sido eu com o meu par, a minha bela Terpsícore. Valsejavam como dois pássaros que, encontrando-se no céu, voam como um só. Pareciam tão distantes daquele salão, tão ausentes dos jogos de poder que os circundavam… Ainda assim, dominavam o salão com a perfeição dos seus passos e a beleza das suas expressões.

Lembro-me de os fitar atentamente, desejando ser o que eram, ter o que tinham. Invejei-os. Não por dançarem, não por se terem um ao outro. Mas por terem ainda a inocência dos que permanecem jovens por dentro.

1 comentário:

  1. Há almas assim...que observam...que estranham...que se questionam... que criam...porque o ato de criar aproxima-nos da imagem do criador...
    Parabéns pelo texto! Rendo-me às suas palavras...

    Felicidades para a sua vida literária! Espero que este país lhe dê o devido valor!

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