sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sobre esses Vox Pop e demagogias semelhantes

Há uma tendência maliciosa entre a sociedade em apontar o defeito e o erro. Não que se deseje que o outro melhore ou que se corrija. Não! Apenas se apontam os erros e os defeitos pela mera diversão de ver o outro exposto e desconstruído na sua imperfeição humana, num acto cru e leviano.

Quanto ao Vox Pop, ou vox populi, como se diz em bom latim, divulgado por uma conhecida revista da nossa praça, onde se apresentam os jovens estudantes universitários, literalmente, como asnos, ou não fosse a imagem de apresentação da referida peça bem elucidativa desse paralelismo, pouco tenho a dizer. Melhor, nada tenho a dizer. Lembro-me de uma citação, de cujo autor não me recordo, que pior do que tecer maus comentários, é não tecer comentários de todo. Assim sendo, não teço qualquer comentário sobre o referido Vox Pop. Contudo, na minha condição de jovem e de recém-licenciado que, ainda há uns meses atrás, partilhava com outros colegas estudantes o mesmo espaço académico, penso que, face aos movimentos díspares que a referida peça despoletou, tenho uma palavra a acrescentar. Talvez não seja apenas uma, talvez sejam duas ou três.

A referida peça que me recuso comentar trouxe à discussão o papel dos jovens na sociedade em que se inserem. Vejo-os serem acusados dos maiores defeitos e imperfeições. São incultos, despreocupados, desinteressados, conformistas, materialistas, superficiais, comodistas e tantos outros adjectivos que se aplicam e que não se aplicam ao que é, de facto, a realidade. Todos, quanto a este assunto, têm comentado a sua própria realidade, aquilo que é a sua percepção. Pois eu, apelando ao mesmo direito que tenho de liberdade de pensamento e de expressão, qual discípulo de John Stuart Mill, venho falar-vos daquela que é a minha realidade.

Vejo uma sociedade preocupada com acusações e responsabilidades, caoticamente desgovernada pela excessiva obsessão em eleger párias e bodes expiatórios. E enquanto se mantiver essa mentalidadezinha, e reforço o zinha, de que o outro é o responsável por todas as agruras do mundo e que eu, empertigada e orgulhosamente, estou isento de qualquer culpa, continuaremos a assistir a fenómenos como o gerado por esse vox populi da autoria dessa conhecida revista da nossa praça.

Enquanto jovem estudante, cruzei-me inúmeras vezes com outros estudantes cuja cultura (dita) geral não era a mesma que a minha. E, certamente, muitos se cruzaram comigo e perceberam que a minha cultura (dita) geral não correspondia aos mesmos padrões por que esses muitos regiam os seus conhecimentos. Contudo, isso não faz de mim, nem deles, mais ou menos inteligente. Ainda assim, considero que o cerne de toda a discussão não é a cultura (dita) geral dos estudantes universitários, mas o papel que desempenham enquanto cidadãos. E é sobre esse papel e sobre os que o apadrinham que tenho duas ou três palavras a dizer.

Os mesmos estudantes incultos, despreocupados, desinteressados, conformistas, materialistas, superficiais, comodistas e com tantos outros adjectivos que se aplicam e que não se aplicam ao que é, de facto, a realidade, são o resultado do sistema que os criou. Não quero cair na generalização, pois não acredito em generalizações, uma vez que são redutoras, mas quanto aos que, de facto, reúnem as características supracitadas, é importante que se diga que foram criados por um sistema que os incentiva a manterem-se tal como estão, que os educa nesse sentido. E falo do sistema em que vivemos, que com os seus valores virados para o facilitismo, o consumo desenfreado e o imediatismo levam a que milhares de consciências se mantenham sob a alçada sombria da ilusão de que tomam decisões conhecendo toda a verdade, ou que nem precisam de tomar decisões sequer. Mas não se sabe toda a verdade, pois o sistema não quer consciências despertas, são mais proveitosas as mentes que se mantêm amorfas e que, além de não pensarem por si, alienam-se com todo o tipo de distracções que lhes dão tudo o que querem e desejam. Esses jovens e essas mentes são o maior trunfo para que o sistema que todos contestam se mantenha exactamente como está, pois, apesar de toda a contestação, o sistema sabe que, grande parte dela, é proferida de um confortável sofá numa sala de estar, apontando-se, meramente, defeitos, defeitos e mais defeitos.

Todos sabem que não se mudam sistemas em sofás e salas de estar. Também não defendo que é nas ruas ou pela violência. Defendo, sim, que é através da atitude, da mentalidade. Basta que cada um de nós comece a tomar consciência de que existe um sistema que nos empurra a responder, a pensar ou a agir de determinada forma, para que tudo possa, realmente, mudar. Basta que cada um de nós se responsabilize e que, todos os dias, contribua para a construção de uma nova realidade.

Mas não me quero desviar do ponto fulcral da discussão: os jovens estudantes. Penso que, se muitos deles são responsáveis pela própria condição em que se encontram, pois há jovens que escolhem ler livros instrutivos e construtivos, mudar de canal para programas que cultivam o intelecto ou que não o diminuem, ou de apagar mesmo a televisão, é crucial referir que apontar apenas os defeitos, seja dos jovens, seja do povo, seja do país que somos, não fará com que saiamos do mesmo impasse em que nos encontramos. São necessárias soluções criativas, mudanças de consciência e de atitude. E desenganem-se os que advogam que falamos de uma questão de cultura. Para se ser socialmente bem-educado, não é preciso ler Dostoievski, ver filmes de Godard, ouvir a música de Tchaickovsky ou apreciar os quadros de Monet. Não! Cresci rodeado por pessoas simples e sem acesso ao que todos chamam de cultura geral. Ainda assim, fazem os possíveis para se envolverem na vida cívica e para manterem os valores e a educação que receberam, o que implica ser-se honrado, honesto, íntegro, verdadeiro, digno, respeitador e tantas outras qualidades que eu poderia aqui referir. Penso que, mais do que a cultura (dita) geral, e digo dita por a minha cultura geral não equivaler, simetricamente, à cultura geral do outro, os jovens, aliás, a sociedade, deve centrar-se na formação ao nível dos valores. Concordo que a cultura alarga horizontes, mas de gente culta e sem carácter e polidez já está o sistema cheio! Deve haver uma simbiose entre cultura e educação, uma aliança entre os valores que permitem que a humanidade se mantenha humana, e o conhecimento que a tornam elevada intelectualmente.

José Saramago escreveu que "só se nos detivermos a pensar nas pequenas coisas chegaremos a compreender as grandes". É demagógico fazer dos jovens párias e bodes expiatórios, mas é interessante observar que, olhando as razões que fundamentam essa particularidade, chegamos à compreensão do todo que a despoleta. E os mesmos jovens que todos acusam, são os mesmos que sustentarão o futuro da sociedade. Tendo defeitos, como humanos que são, também têm qualidades apreciáveis. São empenhados nos seus interesses, altamente criativos e ambiciosos. Assim, precisam de ser encorajados, apoiados e, ao invés de se lhes apontar imperfeições, deve-se, isso sim, incentivá-los e ensinar-lhes como poderão dar o melhor de si para o seu bem maior e para o bem maior de todos os envolvidos.

A verdade não se reduz ao positivo e ao negativo, ao certo ou ao errado. Para que a possamos entender, precisamos de a desconstruir, de a analisar, de a reflectir cuidadosamente. Aí, entenderemos que a verdade é simplesmente complexa, é relativa. Entenderemos que a verdade é uma união de aparentes disparidades e incoerências. E o que é o humano além dessa união perfeita do que é díspar e incoerente?

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