As palavras são como água. As palavras são como lagos plácidos, rios sinuosos, mares incertos. As palavras são como água. As palavras são como água lamacenta, sujas e escuras, infectas e doentes. Quando carregadas de tristeza e de dor, são poços, abismos que se abrem na terra e mergulham toda a esperança no desespero, no caos. Quando carregadas de ira, raiva, ódio, são como tormentas oceânicas, tempestades cuja fúria brada impiedosamente ao Destino e ao Acaso. As palavras são vis e dolorosas, são tiranas que ferem, matam, mentem. São glaciares pérfidos incapazes de amar e tomados pela frieza da solidão. As palavras são como água.
Há nas palavras um encanto etéreo, uma aura semelhante à que se espelha sobre as águas de um charco numa noite de intenso luar. As palavras são como água. Há nelas a suavidade das nascentes, a limpidez dos tímidos regatos dos bosques. Há nelas a pureza que trazem do ventre da Terra, a transparência e a frescura e a esperança de recém-nascidas. As palavras têm a força vibrante dos rios, da corrente destemida para jusante. Têm a brandura e a quietude dos lagos, sussurrando, segredando. As palavras têm a tenacidade das ondas e o suspiro profundo do oceano. São como as nuvens miradas pelo olhar fantasioso das crianças. São como a névoa enigmática e duvidosa, ocultas e estranhas. Ainda assim, têm a beleza da candura da neve nos meses de Inverno. As palavras são como água.
As palavras não são simples, são complexamente simples. São profundamente humanas, um misto do perfeito e do imperfeito, coerentes e incoerentes. As palavras são o encontro de um Eu com outro Eu, como a foz onde se unem rio e mar. Pois as palavras são como água. Sem elas, o humano seria menos humano. Sem elas, o que há de humano no homem não ficaria saciado. Pois só bebendo palavras consegue o homem saciar a sede do que o torna mais humano.