quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A caixa do supermercado

Bip. Bip. Bip. Bip.

A caixa do supermercado toca.

Bip.

A mulher-empregada, licenciatura em História, passa um novo artigo.

Bip. Bip.

Dois pacotes de açúcar.

Bip.

Um pacote de maçãs.

Bip.

São treze euros, por favor.

A caixa abre. A mulher-empregada recebe o dinheiro de uma mulher-senhora que evita olhá-la (talvez tema trabalhar ali também).

O seu troco.

A mulher-senhora arruma o dinheiro na mala de marca francesa e pega nos sacos das compras.

Obrigada. A mulher-empregada sorri.

De nada. Há pessoas que falam como se arrotassem.

Tenha uma boa-tarde.

A mulher-empregada vê a mulher-senhora afastar-se, vestida com um casaco de pêlo até aos joelhos. Pobres animais que se despiram, morrendo, pensa.

Bip. Bip. Bip.

Um novo cliente para atender.

Este é simpático, olha-me nos olhos, pensa.

Bip.

Há por aí inúmeras mulheres-senhoras, e homens-senhores também, que ainda não perceberam que hoje, mais do que nunca, os homens-empregados e as mulheres-empregadas são tão ou mais senhores do que esses que nada mais têm além de tiques senhoriais. Pois hoje, mais do que nunca, começa a desvanecer-se a arcaica noção de que só quem não estuda e desperdiça oportunidades é atirado para um balcão de um bar, para uma fábrica ou para a caixa do supermercado. Apenas os embrutecidos senhores e senhoras mantêm desperta a ideia de que não poderão ter uma conversa interessante com o rapaz que os está a servir no restaurante ou com a rapariga com quem se cruzaram na rua, aquela que distribui jornais gratuitos junto ao semáforo. Hoje, mais do que nunca, pessoas cultas e inteligentes estão em todos os locais que frequentamos, até nos mais improváveis. E todos os senhores e senhoras que o negarem não passam de senhores e senhoras de mentira.

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