quinta-feira, 5 de abril de 2012

Carta a Salgueiro Maia

Alcanhões, 4 de Abril de 2012



Meu caro Salgueiro Maia,

Passaram vinte anos. Foi há vinte anos que partiste. Morreste tão cedo, tão jovem… Talvez tivesses escolhido viver se aos homens coubesse tal decisão. Mas quis o Destino, Deus, o Acaso, que assim se cumprisse. Partiste. Partiste e hoje te recordo sem contigo ter privado, sem tua mão ter apertado respeitosamente e em gratidão. Hoje recordo-te com a saudade dos que contigo libertaram Portugal, dos que contigo fizeram renascer um país livre e emancipado.

Passaram vinte anos, Salgueiro Maia. Portugal mudou. O mundo mudou. Mais países se libertaram dos regimes que os oprimiam, mais povos se rebelaram perante a infâmia de ditadores e governos corruptos. O mundo mudou. Contudo, pergunto-me, Salgueiro Maia, onde está o Portugal da esperança que ajudaste a criar? Onde está o Portugal que se rebelou perante o fantoche de Marcelo Caetano e o fantasma de Salazar? Onde está o Portugal que abateu sem sangue a Velha Senhora e entronou a Nova Senhora sem dúvida ou questão? Onde? Onde está? Onde? Estás onde ainda não te posso alcançar, mas sei que, mesmo que aqui estivesses, não escutaria eu tua resposta, não a terias para me dar. É sacrílego o que o Portugal do Hoje vive. Intolerável! Desconcertante! Abominável!

O Portugal do Hoje, o Portugal que não conheces (para teu bem, Salgueiro Maia), é o Portugal que, todos os dias, desperdiça a oportunidade de ser mais e melhor. O Portugal do Hoje desperdiça o poder da escolha – que também tu conquistaste – em efemeridades e alienações. O Portugal do Hoje converteu-se a um sistema travestido de democracia, onde o povo é (teoricamente) a prioridade. Mudam-se os regimes, mas imperam os vícios e os engodos.

Meu caro Salgueiro Maia, olhaste em 1974 o teu Portugal do Hoje e quiseste um Portugal do Amanhã. Pois hoje te escrevo, hoje te peço: ensina-me, instrui-me. Pois também eu olho o meu Portugal do Hoje com desencanto. E quero, tal como tu, resgatar o Portugal do Amanhã que, pacientemente, espera sob a sombra de um Hoje à deriva. O Portugal do Amanhã espera, apenas, que lhe seja tirado o véu. E haverá alguém que, como tu, ouse despir o que cunham como A Realidade? Eu atrevo-me, mas preciso de quem se atreva comigo também.

E assim me despeço, caro Salgueiro Maia.


Cordiais e respeitosos cumprimentos,


Samuel Pimenta.









1 comentário:

  1. Um fantástico pensamento. Tenho pena que este grande senhor não seja mais lembrado...

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