domingo, 20 de maio de 2012

A tempestade que passou


A tempestade passou. Há água no chão, poças largas, quietas, como que adormecidas, acabadas de nascer. O sol cresceu no horizonte, aproxima-se a hora de iluminar outros lugares no mundo. E espreita-me nas poças de água, fitando-me o rosto serenamente, calado, respirando apenas. Sinto-o a beijar-me a pele, a barba que não faço há uma semana a arranhar-lhe a luz que me toca e se dilui em mim, no meu olhar enternecido, no meu desejo de o ter, de o ser. Pego no copo de vinho que tenho sobre a mesa, perto da janela que dá para a rua, para a tempestade que passou. Dou um gole. E sinto o álcool queimar-me a garganta, como me queima o sol a face, o corpo. E desejo que o vinho seja o sol, que o copo seja eu. Desejo poder beber a luz, o calor, o afago da estrela que me olha como só tu me olhas, como só tu me sabes olhar, como só tu me sabes beber. Só tu me sabes amar. E desejo carnalmente, a ti, tu, tu, tu, eu e tu. Nós. O copo, o vinho, o sol, a poça, a tempestade que passou e que desejo que volte porque é loucura olhar-te e querer-te e amar-te como amo a janela que olho todos os dias desta casa escura e poeirenta.

Desejo que a tempestade volte, para que se apague o sol nas poças que me olham com o teu olhar e que se apague em mim este desejo de nos tornarmos nós, de me tornar tu, de te tornares eu.

Alcanhões, 20 de Maio de 2012 – 17h17m

1 comentário:

  1. Boa noite, Samuel!
    Você encontra o "Amôr de Perdição", de João Martins de Athayde, neste link: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/JoaoMartins/joaoMartinsdeAtaide_acervo.html

    No mesmo site também há um enorme acervo com inúmeros cordeis tanto dos autores da 1ª quanto da 2ª geração!

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