sábado, 2 de junho de 2012

A dança dos loucos


Envolvo-te com os meus braços longos num abraço quente que te quer amar. Toco-te o peito levemente, sinto dentro de ti o coração que vive, que bate bate bate batebatebatebate. Está vivo, por isso bate. O teu coração. O meu coração. Nosso.

Danço contigo. Dançamos. Juntos, nós, eu e tu, nós. Entrelaçados onde não há tempo e espaço e céu e terra e vida e morte. Dançamos uma dança angélica, uma dança divinamente nossa, minha. Chamo-lhe a dança dos loucos, dos que riem quando todos choram, dos que falam quando calam os homens a voz. Dançamos. Danço contigo. E nessa dança envolvo-te com os meus braços, beijo-te a cara, as costas, e toco-te a pele nua, inteira, limpa. És a pura essência das manhãs que nascem e morrem sublimes. E dançamos juntos, ligados, unidos sem que o terreno e o mundano nos separem. Jamais separará o Homem o que Deus uniu. O deus meu que é o deus teu que é o deus nosso que com o deus dos outros e o deus do Mundo, do Universo, é por isso Deus. Deus. Somos Deus, deuses. Humanos deuses. Humanos deuses que dançam. E por te envolver na dança dos loucos sei que me torno mais deus, mais eu, mais nós. O Nós que é Eu. Que é tudo. Que é nada. Sou tudo e nada quando me entrelaço contigo na dança dos loucos. E percebo, dançando, que sou tu e que és eu. Que somos o mundo, o universo. E grito em poema

Trago em
mim a
certeza
de que eu sou o
mundo
sem que ele
seja meu
como sou eu
dele.

Eu sou o mundo quando danço contigo, quando te abraço e te aperto entre as mãos para que elas sumam em ti. Eu quero respirar-te, fundir-me em ti. E é no nascer desse desejo quando entendo que danço só, que danço na plenitude de descobrir que tu és eu e que o meu abraço sobre ti é o meu abraço sobre mim. O meu beijo na tua pele é o meu beijo na minha pele.

Não sei onde começa e termina a dança dos loucos quando percebo, por fim, que dançar contigo é dançar comigo, como se dançasse em frente a um espelho.

Alcanhões, 2 de Junho de 2012 – 15h50m

3 comentários:

  1. Os deuses existem? Pode-se abraçá-los? Têm pele, costas, etc? "Pele", "costas" são palavras do poema... Não serão pele e costas de mármore ou de bronze? pode-se dançar loucamente com uma estátua? ... talvez roubar uma estátua grega do Prado ou do Louvre? Eu alinho num plano de assalto aos museus...

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  2. Benvindos os loucos e as palavras que dançam. Ao lelas, lembro-me de George Bernard Shaw - "A dança é uma expressão vertical de um desejo horizontal"

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