domingo, 15 de julho de 2012

Cidade


Cidade. Caos. Movimento frenético e dança de corpos vivos e não vivos. Cacofonia. De gritos, vozes, choro, gargalhadas, vozes. Cacofonia de vozes. Cacofonia de máquinas e gentes que urram e murmuram. Miscelânea de braços, pernas, cabeças, cabelos, olhos, bocas, mãos, pés, roupas, sapatos, malas, chapéus, jóias. Jóias de latão e de ouro e de prata, de ricos e de menos ricos e de pobres. Guerra de cor. Vermelho, azul e verde, amarelo e cinzento, roxo, preto, laranja e rosa, branco, dourado, castanho. Apoteose de cor. Cor em êxtase. Das gentes, das máquinas, das casas, dos jardins, das praças, dos prédios, do chão. E luzes, luzes por todo o lado. Umas que piscam, outras que não piscam, umas que estão sempre acesas, outras que apenas acordam quando é suposto dormir. Luzes. Cor. A cor de toda a massa que dá corpo à vida que a cidade tem. A forma. Apoteose de cor. Êxtase. Formas. E cheiros, na cidade os cheiros diluem-se no ar e perfumam todos os recantos. Cheira a comida chinesa, nepalesa, indiana, turca, portuguesa, francesa, italiana, japonesa, tailandesa. Cheira a cães e gatos vadios, pombos e ratos. Cheira aos perfumes que, expectantes, observam quem passa nas ruas através do vidro que os separa dos corpos que anseiam lamber. Cheira a fumo, borracha, chuva. Cheira a pó, a terra. Cheira a mijo, a suor, a podre.

A cidade. Una na pluralidade que a define. Pensá-la é pensar em encontro. Pensá-la é pensar num delta de gente que se entranha num oceano humano. As pessoas. A cidade vive das pessoas. Do encontro do Eu com outro Eu. Branco e preto e vermelho e amarelo e brancos e pretos e vermelhos e amarelos. Que importa a cor da pele, o idioma de expressão, as vestes que escondem a nudez? Cidade é encontro e desencontro de iguais, singular e plural. É múltipla em identidades, é múltipla em rostos, é múltipla em emoções. Os namorados que se abraçam no jardim e dizem amo-te e gosto de ti; os casais que jantam silenciosamente nos restaurantes; os homens e mulheres que se pavoneiam nas ruas por nada mais terem para mostrar; os amigos que bebem nos bares e contam histórias do dia de ontem; os velhos que se sentam nos bancos sobre os passeios vendo o que lhes resta da vida a passar; os mendigos sem cara que pedem a vossa esmola por favor; os turistas de boca aberta de espanto ou esplendor; as putas ou mulheres da vida com vestes diminutas à espera, à espera, à espera; os traficantes de droga que aliciam tudo o que mexe, ou quase tudo, duvido que tentem vender bolotas de cocaína aos ratos, aos pombos, ou aos cães e gatos vadios. A cidade é assim. Contém tudo e todos. É um encontro. É um encontro de pessoas e, por isso, de vontades. É múltipla. E por ser múltipla é singular. Unida pela multiplicidade como une o oceano todos os peixes. É essa pluralidade que a torna coesa. E por isso a cidade é cidade, e não vila, aldeia, lugar.

Cidade. Atenta ao silêncio ausente que guarda os muros quietos na noite sombria. A cidade não dorme. E dessa insónia perene nascem o inesperado e o medo, o desconhecido e a aventura, a promessa e o risco. Como útero de betão, a cidade gera o caos que a define. O caos do encontro, do incerto, da esperança. A infinitude do querer, do conseguir, do eu posso. O ir mais além, o passar os limites da condição humana. A cidade é o retiro do inconformismo, da mutação. Tudo se move, nada é estático. Impera o camaleónico, a fugacidade, o imediato. Diria que cidade se deveria escrever com mais duas palavras, o já e o agora. Pois tudo é para o agora e o já. A espera corrói, a paciência… A paciência é uma lenda, um mito urbano. Sente-se tudo e sentem-se todos com tamanha intensidade que o mundo parece girar mais depressa. Mas não gira. O mundo não sai do lugar onde está. Nem a cidade. Ela está ali, simplesmente ali. Apenas parece viver mais depressa.

Caos. Diria que a cidade reúne a beleza do caos. A desordem ordenada que se ergue diante dos olhos que a contemplam deslumbrados. O fascínio pela mão invisível que regula o fluxo urbano. A cidade contém a beleza do caos organizado. Pintura cubista, como se o deus que a criou fosse um Picasso capaz de pintar toda a multiplicidade que a define. Mas não é deus divino o criador da teia urbana. Não. É deus humano. E talvez por isso, sim, talvez por isso, seja a cidade um templo mundano. Um templo, sim, do melhor e do pior que o mundo tem.

Lisboa, 11 de Julho de 2012 – 23h44m




in Revista Phocal  Photovisions N.º 06
Texto de introdução ao trabalho publicado do fotógrafo Paulo César
Julho de 2012

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