segunda-feira, 2 de julho de 2012

Existem histórias que nos deixam a pensar

Todos sabemos que o teatro é uma representação do real. Vivê-lo com intensidade passa por nos revermos nas personagens que ganham vida em palco, por identificarmos reflexos do Eu na história que é criada diante dos nossos olhos. É por isso que viver a experiência de ir ao teatro é sempre tão arrebatadora, como se houvesse um fascínio por nos (re)vermos no palco, por nos espiarmos através dos actores que animam as personagens.

Ontem pude assistir à peça Seis… Quase Meia, no Teatro Rápido, em pleno Chiado. Se estamos habituados a ver teatro sentados comodamente nos nossos lugares, ali a experiência é diferente. Não há lugares sentados (a não ser que usem o chão, como eu fiz), não há palco, a sala tem o tamanho de um quarto, os actores estão a poucos metros de nós. Somos como que forçados a entrar em cena, tornamo-nos figurantes do drama vivido pelo casal interpretado pelos actores Pedro Cunha e Anaísa Raquel. E o distanciamento da peça só é garantido por nos mantermos silenciosamente expectantes, como que invisíveis, enquanto a peça decorre. Senti-me, confesso, como se fosse um deus que se mantém atentamente inerte, passivamente observador, face ao desespero de um casal cujos recursos já não permitem comprar comida. Deus esse, adianto-vos, por quem a mulher tanto apela e de quem o homem já nada espera.

O texto, de João Ascenso, é meritório, assim como a interpretação dos actores. Recordo que, no Teatro Rápido, as peças têm quinze minutos, com um intervalo de dez minutos entre cada sessão, para os actores poderem descansar; acredito que, dada a intensidade dramática de Seis… Quase Meia, deva ser esgotante. Ainda assim, esgotante ou não, foi uma experiência catártica.

Não revelo muito mais da peça. Tudo o que eu possa dizer não substitui a experiência em que nos colocamos como observadores do real, através do teatro. Ainda assim, acrescento o seguinte: Seis… Quase Meia leva à reflexão das prioridades que o mundo contemporâneo tem vindo a tomar. Refiro-me às prioridades do indivíduo, do cidadão comum, mas também às prioridades do colectivo humano, da sociedade em que estamos inseridos. Pois que faríamos nós, homens e mulheres deste mundo, se tudo o que nos sustenta nesta realidade que criámos ruísse sem qualquer aviso prévio? Também clamaríamos desesperadamente por esse Deus que não nos escuta, como a mulher? Ou seguiríamos os ditames da consciência que nos inflama de sabedoria?

Existem histórias que nos deixam a pensar...

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