sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Do processo de ler

Quando termino de ler um bom livro, sou tomado por uma saudade nostálgica inquietante. Assim que vejo as páginas do fim próximas, sinto como que uma vontade em demorar-me mais na leitura, em prolongar cada letra e cada sílaba para que as sinta ainda mais intensamente. De um s leio um sssssss. De um amor sinto e leio AAAMMMOOORRR. Demoro-me na leitura dos caracteres a negro impressos nas folhas brancas que toco e cheiro com verdadeiro prazer. Sem pressa.

Terminar de ler um bom livro força-me à despedida de um bom e velho amigo. Durante o tempo de leitura, houve um discurso criado por mim, pelas personagens do livro e pelo escritor. Ler é um encontro que promove um diálogo interno em quem lê. E quando termina esse encontro, chega a saudade, o desassossego do adeus. Quando termino um bom livro, sinto o abismo que obriga ao abraço de despedida de um bom amigo. Abraço-o demoradamente, aperto-o contra o peito. Gosto de sentir um bom amigo até ter a certeza de que é hora de o deixar partir. E chegado ao fim de um livro, fecho-o, pouso-o sobre o colo, e fico suspenso no vácuo, a olhar o vazio que fica quando nos despedimos de alguém que amamos. Fico ali, a senti-lo enquanto fizer sentido para mim. Por fim, entrego-o à guarda da estante. Sei que, ali, está seguro e incondicionalmente disponível.

Felizmente, assim que termino de ler um livro, o vazio que fica com a saudade da despedida é colmatado com a excitação do começar a leitura de um outro livro. Aí, é como se esperássemos aquele amigo que não vemos há muitos anos. Sabemos que já não é o mesmo, que vem diferente. No âmago, paira-nos a dúvida se nos iremos entender como outrora. Mas a alegria e o magnetismo do reencontro superam todas as questões menores que nos deixam duvidosos. Expectante e nervoso, qual criança, começo a ler o novo livro com avidez. Fome de palavras. Passa a euforia. Recupero o fôlego e modero a respiração. Degustar um livro letra a letra. E a leitura segue a bom ritmo. Calmamente, como gosto de viver. E não penso muito na hora do adeus. Quando terminar o meu encontro e chegar o inevitável fim ao diálogo, pensarei na melhor forma de me despedir de um outro bom amigo.

Lisboa, 24 de Agosto de 2012 - 11h40

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