terça-feira, 14 de agosto de 2012

Mar luso

Há um porto que se espraia pelas águas de sal do Atlântico e que recorta o horizonte marinho com pedra, areia e gaivotas. Há um porto de abrigo nessa Europa de guerras e dor que é o rosto pueril de um corpo que sofre e envelhece. Essa face cândida e limpa, pura e simples, bebe das águas atlânticas e respira maresia nas manhãs em que a bruma abraça o corpo ressequido da terra lusa. Uma terra feita de mar e um mar feito de terra, onde habita a saudade de um não sei bem de quê em cada olhar e sorriso. Uma melancolia líquida que se dilui na grande janela de água que, da terra lusa, permitiu que o mundo fosse mais português. O mar luso é o elixir da vida, o néctar salgado que desenha o sorriso pueril do ancião de pedra continental. E é esse Portugal etéreo e sublime que se espelha como porto, farol dos povos, nas águas marinhas que lhe beijam a fronte.

No centro do mundo, ergue-se esse farol luso sobre um mar que o sustém e comanda, esse mar revolto e mitológico, onde vivem sereias, adamastores e monstros tormentosos. Do mesmo mar nascem quimeras de esperança e utopias que se cumprem. Ninfas, musas. Magia. Há um farol de milagres, profecias, que pelas vagas brancas ilumina os corações de todas as almas que aceitam escutar o sussurro ancestral do mestre que olha o oceano para lá do possível. Esse mestre é Portugal.

A areia de ouro e prata é augusto tapete para os que pisam a terra dos senhores do Atlântico. As vagas azuis, coroadas de espuma branca de seda, são o suspiro perene de reis e heróis imortais. As escarpas que a água esculpiu são a obra-prima de uma terra que esculpiu o mundo. A terra lusa é feita da esperança e do sonho e da promessa que emergem do brilho marítimo que alcança o longe e o eterno. Olhar o sol que se ergue no intenso azul do céu e vê-lo bruxuleante no intenso azul do mar é ter a certeza de que é possível ser-se rei em dois mundos. E o mar, sim, o mar, faz de Portugal um rei múltiplo e etéreo. Talvez por isso Portugal tenha tanto de mar como tem o mar de português.


Lisboa, 14 de Agosto de 2012 - 12h57m

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