quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Da beleza

A humanidade contorce-se formigueiramente e sem nome. A multidão homogeneizada que lhe dá forma é uma massa colossal com olhos cegos e pernas trôpegas. Das mil e uma diferenças que originam o indivíduo, ressaltam elementos que o incluem num ou noutro padrão da massa cega e trôpega. Massa gasta, doente, despersonalizada.

Das diferenças da multidão homogeneizada, destacam-se os exemplares humanos que a beleza sagrou. Os adónis e as helenas da humanidade regalam a vista e aceleram corações. Acentuam formas, perfumam-se com fragrâncias inebriantes, exibem formosura. O mundo coroa-os com louro e estende-lhes passadeiras de flores. Dariam exemplares estupendos nas melhores galerias de arte. A perfeição na face, a perfeição no corpo. Afortunados são os que a beleza ungiu! E os que a conquistam ou que ainda a perseguem.

A beleza é uma virtude apaixonante. Não lhe sou indiferente nem a desprezo. Apenas percebi que muitos adónis e helenas deste mundo, embora ostentando a perfeição e a singeleza no rosto, carregam o horror da corrupção na alma. A humanidade está infestada de dorians gray! Homens e mulheres adornam-se cada vez mais, mas são cada vez menos interessantes e puros. Estão gastos, doentes, despersonalizados. Iguais. E os que sofrem da doença doriangrayodesca, não tendo um quadro em casa que lhes dê forma à alma, têm consciência, mesmo que inconscientemente, de que estão a perder a subtil essência que os define enquanto seres. Por isso decoram o corpo para parecerem beleza encerada e perfumam a pele obsessivamente para que o odor pútrido da alma corrompida que carregam não se faça sentir. Não faço disto regra, sou avesso à esteriotipização. Contudo, sei que, em parte, assim é.

Perdeu-se a beleza das coisas grandes e simples. Impera, agora, a adoração ao que é fugaz, ornamentado e pequeno. Muito pequeno. E o mundo não pode ser povoado, somente, por helenas e adónis, ou por pessoas que anseiam tornar-se helenas e adónis. Embora todos apreciemos a beleza na perfeição do rosto, em verdade, a beleza mais elevada está na pureza da alma. Mantenhamo-la pura e sejamos o que somos. Mas com a certeza de que não guardamos um quadro secreto e horrendo dentro de nós.


Lisboa, 20 de Setembro de 2012 – 14h20m
            

2 comentários:

  1. Adorei o texto, não é fácil provar que a beleza não é nosso padrão. Há algo mais essencial que a aparência e por várias razões, já sofri muitos preconceitos por isto. Abraço daqui.

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  2. Como é belo o teu texto, apesar do horror que emana!
    Adorei!

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