Bip. Bip. Bip. Bip.
A caixa do supermercado toca.
Bip.
A mulher-empregada, licenciatura em História, passa um novo artigo.
Bip. Bip.
Dois pacotes de açúcar.
Bip.
Um pacote de maçãs.
Bip.
São treze euros, por favor.
A caixa abre. A mulher-empregada recebe o dinheiro de uma mulher-senhora que evita olhá-la (talvez tema trabalhar ali também).
O seu troco.
A mulher-senhora arruma o dinheiro na mala de marca francesa e pega nos sacos das compras.
Obrigada. A mulher-empregada sorri.
De nada. Há pessoas que falam como se arrotassem.
Tenha uma boa-tarde.
A mulher-empregada vê a mulher-senhora afastar-se, vestida com um casaco de pêlo até aos joelhos. Pobres animais que se despiram, morrendo, pensa.
Bip. Bip. Bip.
Um novo cliente para atender.
Este é simpático, olha-me nos olhos, pensa.
Bip.
Há por aí inúmeras mulheres-senhoras, e homens-senhores também, que ainda não perceberam que hoje, mais do que nunca, os homens-empregados e as mulheres-empregadas são tão ou mais senhores do que esses que nada mais têm além de tiques senhoriais. Pois hoje, mais do que nunca, começa a desvanecer-se a arcaica noção de que só quem não estuda e desperdiça oportunidades é atirado para um balcão de um bar, para uma fábrica ou para a caixa do supermercado. Apenas os embrutecidos senhores e senhoras mantêm desperta a ideia de que não poderão ter uma conversa interessante com o rapaz que os está a servir no restaurante ou com a rapariga com quem se cruzaram na rua, aquela que distribui jornais gratuitos junto ao semáforo. Hoje, mais do que nunca, pessoas cultas e inteligentes estão em todos os locais que frequentamos, até nos mais improváveis. E todos os senhores e senhoras que o negarem não passam de senhores e senhoras de mentira.