A
tempestade passou. Há água no chão, poças largas, quietas, como que adormecidas,
acabadas de nascer. O sol cresceu no horizonte, aproxima-se a hora de iluminar
outros lugares no mundo. E espreita-me nas poças de água, fitando-me o rosto
serenamente, calado, respirando apenas. Sinto-o a beijar-me a pele, a barba que
não faço há uma semana a arranhar-lhe a luz que me toca e se dilui em mim, no
meu olhar enternecido, no meu desejo de o ter, de o ser. Pego no copo de vinho
que tenho sobre a mesa, perto da janela que dá para a rua, para a tempestade
que passou. Dou um gole. E sinto o álcool queimar-me a garganta, como me queima
o sol a face, o corpo. E desejo que o vinho seja o sol, que o copo seja eu.
Desejo poder beber a luz, o calor, o afago da estrela que me olha como só tu me
olhas, como só tu me sabes olhar, como só tu me sabes beber. Só tu me sabes
amar. E desejo carnalmente, a ti, tu, tu, tu, eu e tu. Nós. O copo, o vinho, o
sol, a poça, a tempestade que passou e que desejo que volte porque é loucura
olhar-te e querer-te e amar-te como amo a janela que olho todos os dias desta
casa escura e poeirenta.
Desejo
que a tempestade volte, para que se apague o sol nas poças que me olham com o
teu olhar e que se apague em mim este desejo de nos tornarmos nós, de me tornar
tu, de te tornares eu.
Alcanhões, 20 de Maio de 2012 – 17h17m