Meu doce meu brando meu iluminado
Portugal, escrevo-te hoje em Lisboa, 10 de Junho de 2012, para te saudar, para
te dizer que és grande e que o não sabes, para te dizer como te amo e amo e amo
até à infinitude da tua expressão humana e divina. Escrevo-te hoje para
expressar a magnificência do teu canto e do teu ser. Pois não és o que dizem
que és. Não és a crise, não és o medíocre, não és a dor. És muito mais do que
podem ver os homens que te acusam e te não vêem. És muito mais do que podem
sentir as gentes que te forçam a rastejar. És muito mais do que, tu mesmo, crês
que és.
Não tenho televisão em casa, sabes?
Também não preciso de a ter. Sem ela, sei que, hoje, te celebram como o fazem
todos os anos. Será mais um dia em que senhores dizem a outros senhores que tu
estás a resistir, que para o ano estarás recuperado, que urge cuidar dos desprotegidos,
que tens de fazer sacrifícios, que e que e que, que todo este blablablá do tem
de ser e do deve ser te salvará pela intemporalidade. Mas todos os anos dizem o
mesmo. Mudam e não mudam as palavras, mudam e não mudam os senhores que o dizem,
mudam e não mudam os senhores que o ouvem. Contudo, não muda o blablablá.
Mantém-se. Por isso, desisti de ter televisão em casa. Acredites ou não, sei
mais agora do que quando a tinha. Mas não é hoje dia de fazer o que fazem os
senhores. Não. Eu hoje quero ser como as crianças e por isso quero dizer-te que
és a esperança feita rectângulo e continente e país e povo e infinito. És a
grandeza imaterial que eleva a humanidade pelo teu espírito audaz e simples. És
o farol da Terra, o porto que ancora a luz que se faz palavra e que pela mão
dos poetas transforma o Universo. És a vanguarda dos que sentem mais do que há
para sentir.
O rosto do sonho.
A pura expressão do amanhã.
A esperança que dissipa o nevoeiro.
O poema que reina o império dos que
acreditam.
És luz.
Amor.
Escrevo-te para que te recordes, para
que resgates o que a ti te pertence. És senhor de ti mesmo, pátria branda que
abraça o mundo como a um igual. Cabe em ti, Portugal, toda a humanidade. Pois
não és tu senhor dos outros senhores. Não. És senhor de ti. Só de ti. Cego e de
braços abertos para os homens. Barca guardiã da sabedoria ancestral que, do
éter, germina na terra. És o oceano da dignidade que engrandece os povos.
Que os eleva ao que de divino carregam.
Que os guarda nesse amor pueril de
quimera.
Sê essa inteireza que vejo em ti. Sê
essa caravela que cruza não os mares em evangelização, mas a liberdade do ser e
da essência do mundo. Sê o que és e o que te destinou o fado, esse clamor
consciente de quem grita uma verdade maior. Sê, Portugal, o que escrevem e
cantam os que não morrem. Pois sendo o que és, jamais farão de ti o que nunca
foste.
E com isto me despeço nesta carta que te
escrevo, meu doce e brando e iluminado Portugal. Com amor, deste Samuel Pimenta
que te quer bem.