Despi-me
de todas as roupas com que me vesti. Cobre-me a autêntica nudez pura, a pele
limpa e livre. Ando descalço. Sinto o chão beijar-me os pés, a profunda
vertigem da terra de que sou feito a abrir-se abaixo de mim. Toco-lhe o ventre,
o núcleo sagrado. E ela toca-me também. Toca-me os pés, as pernas, o sexo, o
ventre, as costas, as mãos, os braços, os ombros, o peito, o pescoço, a face,
os lábios, os olhos, a testa, o corpo nu, a pele nua, o eu nu. O ser. Sou o nu
do meu ser. Por isso me toca a terra. Por isso sinto também o seu toque.
Sinto-o abaixo e dentro de mim. Sinto-o em todo o lado, por todo o lado. Porque
entre mim e todo o lado não existe fronteira, linha ou fortaleza que nos
separem. Arrepio-me. A terra toca-me o sangue, dilui-se nele. Sorrio. É bom
quando nos despimos das vestes com que nos vestiram.
Caminho
nu sobre a terra. Caminho nu sobre mim mesmo. Veste-me agora a candura da
plenitude sagrada que habita em mim, do sublime que, dos meus olhos, se
projecta no mundo. Passei a caminhar sobre mim mesmo. Abaixo, a terra que toco
e que me toca. Acima, o céu, o intenso azul, a cor do infinito. Ergue-se sobre
mim o universo que me engole e envolve num abraço que me sufoca de tão
libertador, de tão verdadeiro. De tão meu. E nessa união de céu e terra que há
em mim torno-me uma orgia de êxtases que me devolvem à essência que me pariu e
ao que de mais puro me define. Sou a verdade de mim mesmo, a realidade que
criei para me libertar. Renascer.
Renasço
a cada segundo de ar que inspiro, alimentando a loucura que internamente se
deleita com o prazer dos corpos e vidas que em mim se entrelaçam e unem sob o
júbilo desse amor que trago no peito. Apenas existe amor. E de mim são dados à
luz novos seres, novos corpos, novos eus. Parir tudo e nada pelo amor que em
mim se ancora.
E
nada mais é real, nada mais existe, nada mais é…
Amor…
Amo…
Am…
A…
…
..
.
E
renasço novamente. Nu.
Eu.
Alcanhões, 16 de Junho de 2012 –
19h27m