Todos
sabemos que o teatro é uma representação do real. Vivê-lo com intensidade passa
por nos revermos nas personagens que ganham vida em palco, por identificarmos
reflexos do Eu na história que é criada diante dos nossos olhos. É por isso que
viver a experiência de ir ao teatro é sempre tão arrebatadora, como se houvesse
um fascínio por nos (re)vermos no palco, por nos espiarmos através dos actores
que animam as personagens.
Ontem
pude assistir à peça Seis… Quase Meia, no Teatro Rápido, em pleno Chiado. Se
estamos habituados a ver teatro sentados comodamente nos nossos lugares, ali a
experiência é diferente. Não há lugares sentados (a não ser que usem o chão,
como eu fiz), não há palco, a sala tem o tamanho de um quarto, os actores estão
a poucos metros de nós. Somos como que forçados a entrar em cena, tornamo-nos
figurantes do drama vivido pelo casal interpretado pelos actores Pedro Cunha e
Anaísa Raquel. E o distanciamento da peça só é garantido por nos mantermos
silenciosamente expectantes, como que invisíveis, enquanto a peça decorre.
Senti-me, confesso, como se fosse um deus que se mantém atentamente inerte,
passivamente observador, face ao desespero de um casal cujos recursos já não
permitem comprar comida. Deus esse, adianto-vos, por quem a mulher tanto apela
e de quem o homem já nada espera.
O
texto, de João Ascenso, é meritório, assim como a interpretação dos actores.
Recordo que, no Teatro Rápido, as peças têm quinze minutos, com um intervalo de
dez minutos entre cada sessão, para os actores poderem descansar; acredito que,
dada a intensidade dramática de Seis… Quase Meia, deva ser esgotante. Ainda
assim, esgotante ou não, foi uma experiência catártica.
Não
revelo muito mais da peça. Tudo o que eu possa dizer não substitui a
experiência em que nos colocamos como observadores do real, através do teatro.
Ainda assim, acrescento o seguinte: Seis… Quase Meia leva à reflexão das
prioridades que o mundo contemporâneo tem vindo a tomar. Refiro-me às
prioridades do indivíduo, do cidadão comum, mas também às prioridades do
colectivo humano, da sociedade em que estamos inseridos. Pois que faríamos nós,
homens e mulheres deste mundo, se tudo o que nos sustenta nesta realidade que criámos
ruísse sem qualquer aviso prévio? Também clamaríamos desesperadamente por esse
Deus que não nos escuta, como a mulher? Ou seguiríamos os ditames da consciência
que nos inflama de sabedoria?
Existem
histórias que nos deixam a pensar...