A
humanidade contorce-se formigueiramente e sem nome. A multidão homogeneizada
que lhe dá forma é uma massa colossal com olhos cegos e pernas trôpegas. Das
mil e uma diferenças que originam o indivíduo, ressaltam elementos que o
incluem num ou noutro padrão da massa cega e trôpega. Massa gasta, doente,
despersonalizada.
Das
diferenças da multidão homogeneizada, destacam-se os exemplares humanos que a
beleza sagrou. Os adónis e as helenas da humanidade regalam a vista e aceleram
corações. Acentuam formas, perfumam-se com fragrâncias inebriantes, exibem formosura.
O mundo coroa-os com louro e estende-lhes passadeiras de flores. Dariam
exemplares estupendos nas melhores galerias de arte. A perfeição na face, a
perfeição no corpo. Afortunados são os que a beleza ungiu! E os que a
conquistam ou que ainda a perseguem.
A
beleza é uma virtude apaixonante. Não lhe sou indiferente nem a desprezo. Apenas
percebi que muitos adónis e helenas deste mundo, embora ostentando a perfeição
e a singeleza no rosto, carregam o horror da corrupção na alma. A humanidade
está infestada de dorians gray! Homens e mulheres adornam-se cada vez mais, mas
são cada vez menos interessantes e puros. Estão gastos, doentes,
despersonalizados. Iguais. E os que sofrem da doença doriangrayodesca, não
tendo um quadro em casa que lhes dê forma à alma, têm consciência, mesmo que
inconscientemente, de que estão a perder a subtil essência que os define
enquanto seres. Por isso decoram o corpo para parecerem beleza encerada e
perfumam a pele obsessivamente para que o odor pútrido da alma corrompida que
carregam não se faça sentir. Não faço disto regra, sou avesso à
esteriotipização. Contudo, sei que, em parte, assim é.
Perdeu-se
a beleza das coisas grandes e simples. Impera, agora, a adoração ao que é
fugaz, ornamentado e pequeno. Muito pequeno. E o mundo não pode ser povoado,
somente, por helenas e adónis, ou por pessoas que anseiam tornar-se helenas e
adónis. Embora todos apreciemos a beleza na perfeição do rosto, em verdade, a
beleza mais elevada está na pureza da alma. Mantenhamo-la pura e sejamos o que
somos. Mas com a certeza de que não guardamos um quadro secreto e horrendo dentro
de nós.
Lisboa, 20 de Setembro de 2012 –
14h20m