domingo, 20 de janeiro de 2013

[Quando me olho no espelho]


Quando me olho no espelho
vejo o homem de que
sou feito, o corpo
que me vestiu.
Vejo a carne, o grito, o choro.
Sangue, osso, pele.
Forma parida, escultura
humana que respira e
mexe.
Em mim há
céu e terra e luz
há mar e brisa
e chama e
ferro. Pedaço de
mundo que me
rasga o ser.
Em mim há o
horror mundano, o êxtase
idílico da sublimação.
Volúpia, encanto, candura, morte.
Em mim há a dor do
parto de quem
morre e
renasce.
Sou uma torrente de
desejo sem
fim, um corpo que
agoniza pelo que é
mais alto e
excelso.
Quando me olho no espelho
vejo bailados
infindos, risos
eternos, vozes que o
mundo nunca
ouviu. Sim, vejo
todas as vozes que
o mundo nunca
ouviu.
Trazem-me segredos e
sonhos, cantos proféticos
do que é oculto e
distante.
Vejo-lhes as línguas
os dentes
as bocas
os sexos
os beijos.
Beijam-me. Beijo-as.
Em mim vejo todos os
rostos que existem e que
estão por vir, todos os
mundos possíveis e
inimagináveis.
Universos que me
brotam do
peito e me abraçam.
Abraço-os.
Unimo-nos.
Sou a fêmea que traz
ao mundo a vida
e o grito, o homem
que urra uma fome
sem fim.
Avidez de quem gera amor no ventre,
ser que nasceu para parir.
Quando me olho no espelho
vejo a marca de quem vive
além do que é possível
viver, loucura entre os
que apregoam o
impossível.
Corre-me nas veias o
sangue das estrelas
e forma-me os ossos
o pó de que é feito
o início do
tempo.
Quando me olho no espelho
vejo tudo o que eu sou.
E o reflexo que espreita a
memória de tudo o que
poderia ter
sido.

Alcanhões, 20 de Janeiro de 2013 – 18h03m

1 comentário:

  1. O espelho da alma e o sentimento muito profundo em versos traduzido.
    Perfeito!

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