sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Representar

"Dou por mim a representar. A vida não é mais do que um espectáculo, uma peça de teatro. Represento frequentemente para mim mesmo. Um gesto, uma conversa, um passo... Vivo em constante representação, a contar histórias a mim mesmo. Da minha vida, faço uma maravilha. O que aos olhos alheios pode parecer vulgar, é para mim a mais bela prova de que a vida é perfeita. De um passo, faço uma valsa. De uma palavra, a mais hipnótica canção. Vivo com dramatismo. Acção. Movimento. Talvez por isso me sinta tão próximo dos palcos, dos actores... Das luzes, dos panos que caem, da solidão das salas repleta de gente. Sou actor de mim mesmo. Todos o somos, todos representamos. Há quem represente para outrem, para o alheio. Eu não. Represento para mim. Sei que, assim, poderei conhecer-me melhor e, mais do que isso, colorir a vida. Pois que seria da vida sem uma gargalhada repleta do drama da verdade e do real? Há que colorir a vida com a cor que nos inunda por dentro. Se nos faz viver uma mentira? Jamais! Acaso o teatro é ilusão? Não confundamos mentira e representação. Trazer dramatismo aos meus gestos e histórias aos meus passos não é mentir, não é ilusão. É viver. É, para mim, a saída, a fuga para suportar a vida do real que nos é imposto. Quem não adorna o espelho com que se mira? Eu faço-o. E com isso, vivo a verdade. A minha. A mais legítima de todas."

in Diário I
Alcanhões, 23 de Agosto de 2013

Sem comentários:

Enviar um comentário