quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O lugar essencial

Lido na Universidade Livre de Bruxelas
por ocasião da abertura das "Jornadas da Literatura Portuguesa"
do Instituto Camões e da Embaixada de Portugal em Bruxelas
a 26 de Novembro de 2014


Existe um lugar em mim inacessível ao outro. É onde me resguardo da toxicidade do mundo, numa concha lisa e branca, quase transparente. Nunca alguém vislumbrou esse lugar vital e limpo, onde haikus se desdobram das árvores como flores e o céu, de tão claro, é um véu de luz azul e diáfana. Ali, a vida emerge a cada movimento da Terra, deífica e depurada. É o meu cais. Guardo-o dentro de paredes invisíveis e maciças, intransponíveis. Posso estar sob o olhar do mundo, mas inacessível. E quem me vê não entende porque me envolvo nesse silêncio, nessas águas plácidas, puras e distantes da mundanidade. É ali que eu sou. Simplesmente sou.

Quero vivenciar a essência, a verdade, a superfície é-me insuficiente. Essa essência, essa verdade, reside na sacralidade da vida, na noção de que cada gesto, cada pensamento, é um milagre. Naquele lugar em mim, eu toco essa pureza e simplesmente sou, simplesmente vivo esse milagre. Do silêncio, da luz e das águas. Ali eu sou. Mas o mundo não me permite ser fora desse lugar, não me permite viver na essencialidade. Confunde-se a pobreza do superficial com a profundidade do simples. Sou incapaz de viver em águas turvas, quando a minha alma é irmã das águas limpas e livres dos rios.

Hoje mesmo, vou repousar nesse lugar essencial em mim. Passearei entre os lírios e curvar-me-ei perante o vento, qual bambu que se baloiça e dança, dança... Ali, esperarei o dia de voltar à Terra para tentar, novamente, que todos vejam essa beleza líquida que eu vejo. Que as águas possam limpar-nos por dentro e que os nossos olhos se abram para a verdade. Sei que o dia chegará, é o meu desejo. Até lá, esperarei, aqui, neste lugar essencial.


Lisboa, 13 de Março de 2014 – 11h06m

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