quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Um mar linguístico

Discurso de Abertura da Cerimónia de Entrega
da Comenda Luís Vaz de Camões
no Real Gabinete Português de Leitura da Bahia, Brasil

Imaginemos que a Língua Portuguesa não é partilhada por mais de 8 nações, que em Portugal nunca existiu um Infante que se atreveu a desejar descobrir que povos existiam para lá do Atlântico que recorta a costa das terras lusas, que Camões nunca cantou a bravura de uma língua que trouxe novas noções ao Ocidente de como era o mundo. Imaginemos que o Português se confinou ao rosto da Europa, ao rectângulo a que chamamos de Portugal, e que ali se manteve todos estes séculos a olhar, a olhar…

Que seria o Português sem a pele negra coberta de sal e o desejo da liberdade, sem o índio e o aroma perfumado das especiarias, sem o horizonte que orienta o olhar e o querer? Que seria o Português sem a multiplicidade que distingue cada um dos seus falantes, mas que ao mesmo tempo os aproxima, os torna cúmplices?

Quem fala português carrega a herança das cantigas sefarditas, das promessas de amor dos lenços dos namorados, das trovas medievais e do Fado, mas também traz no peito, na voz, o crioulo, o candomblé, a semba, a Bossa Nova, a capoeira, o mar que nos une e que nos torna cúmplices, esse mar simbólico que chamamos de Língua Portuguesa, pois pelo mar ela se expandiu e pelo mar ela ainda respira, vive e evolui. E nós, que a falamos, somos os novos navegadores, não os que vão em busca de conquistar o outro, mas os que sabem que é através da Língua e da cultura que podemos fortalecer os elos que nos aproximam e nos humanizam. Pois se temos a possibilidade de ter esse lugar em comum chamado Língua Portuguesa, é para que o usemos como um espaço de encontro, conexão e partilha.

Falar Português é ser mestiço, é saber que se é herdeiro de uma cultura plural formada pela diversidade dos povos que a vivem. Que possamos manter a multiplicidade da Língua Portuguesa, multiplicidade essa que cria um lugar de comunhão onde nos encontramos para partilhar a individualidade de quem somos. Que a celebração dos 8 séculos da Língua Portuguesa seja um hino a essa identidade múltipla que nos define. E que possamos navegar juntos nestes descobrimentos da nova era, a era em que homens e mulheres reconhecem que são diferentes, mas que pela vontade se unem em prol de um bem maior: toda a humanidade.

Axé!

Salvador da Bahia, 9 de Agosto de 2014

2 comentários:

  1. Axé, Samuel Pimenta, compartilho com o brilhantismo da solenidade, em Salvador onde os povos da mesma língua, se encontram, se entendem no vocabular da língua mãe. Abraços.

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  2. Quando me perguntam sobre a minha etnia, eu respondo: SOU ÍNDIO, SOU BRANCO e sou NEGRO, logo, sou BRASILEIRO! Amo ser brasileiro, falar português, escrever sonetos...
    Abraço fraterno.

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