Discurso de
Abertura da Gala do Prémio Excelência Literarte – CEMD
no âmbito da
entrega do Prémio Liberdade de Expressão 2014
no Museu do
Oriente, Portugal
Se eu recuar aos primeiros anos da minha
vida, lembro-me de uma sensação desconfortável. Um nó. Desassossego. Lembro-me
de querer nomear toda a vida retida dentro de mim em ebulição. Toda a cor que
via. Todo o som. Todas as palavras. Os nomes que conhecia nunca foram
suficientes. Tudo me parecia incompleto, desprovido de um sentido inteiro e
total. No dia em que escrevi pela primeira vez, ainda criança, criei, criei
algo que provinha desse desassossego, desse fluxo estancado dentro de mim.
Desamarrei o nó e permiti que fluíssem as águas. Criei vida. Sou mais livre
desde o dia em que escrevi a primeira palavra.
Fazer arte, criar, é viver num espaço de
liberdade. Da nuvem infinda de imagens e conceitos que se movem dentro de nós, depuramos
apenas o núcleo essencial que nos permite dar forma ao novo, que nos permite
expandir e recriar o real. Num espaço de liberdade efectivo impõem-se todas as
escolhas possíveis, percebi-o assim que inscrevi a primeira letra. No dia em
que escrevi pela primeira vez, escolhi libertar-me um pouco mais do nó, do
desassossego de ver e sentir o mundo dentro de mim. O acto de criar foi um acto
de ruptura, um protesto a essa sensação desconfortável que me governava por
dentro. Criei um novo texto e transformei o real. Escolhi. E sempre que
escrevo, sempre que decido romper essa infinidade de imagens e conceitos dentro
de mim, liberto-me um pouco mais, escolho ser um pouco mais livre. Sempre que
escrevo, transformo-me e transformo o que me rodeia. O desassossego mantém-se,
o nó não se desenlaça por completo. Mas é esse o meu ofício, o nosso ofício: transformar
desassossego em liberdade através do acto criador.
A arte é a alquimia do real. Por isso
ela é tão vital à vivência humana e pela mesma razão é tão perseguida. A arte
liberta pelo seu poder transformador, por possibilitar ao mundo mais escolhas.
E nós, que estamos aqui porque criamos, que estamos aqui porque queremos
escolher, que estamos aqui porque sabemos que a arte é uma oportunidade de
evolução, somos quem zela pela liberdade que o acto criador doa ao mundo.
Lisboa, 4 de Outubro de 2014
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