segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A arte como espaço de liberdade

Discurso de Abertura da Gala do Prémio Excelência Literarte – CEMD
no âmbito da entrega do Prémio Liberdade de Expressão 2014
no Museu do Oriente, Portugal

Se eu recuar aos primeiros anos da minha vida, lembro-me de uma sensação desconfortável. Um nó. Desassossego. Lembro-me de querer nomear toda a vida retida dentro de mim em ebulição. Toda a cor que via. Todo o som. Todas as palavras. Os nomes que conhecia nunca foram suficientes. Tudo me parecia incompleto, desprovido de um sentido inteiro e total. No dia em que escrevi pela primeira vez, ainda criança, criei, criei algo que provinha desse desassossego, desse fluxo estancado dentro de mim. Desamarrei o nó e permiti que fluíssem as águas. Criei vida. Sou mais livre desde o dia em que escrevi a primeira palavra.

Fazer arte, criar, é viver num espaço de liberdade. Da nuvem infinda de imagens e conceitos que se movem dentro de nós, depuramos apenas o núcleo essencial que nos permite dar forma ao novo, que nos permite expandir e recriar o real. Num espaço de liberdade efectivo impõem-se todas as escolhas possíveis, percebi-o assim que inscrevi a primeira letra. No dia em que escrevi pela primeira vez, escolhi libertar-me um pouco mais do nó, do desassossego de ver e sentir o mundo dentro de mim. O acto de criar foi um acto de ruptura, um protesto a essa sensação desconfortável que me governava por dentro. Criei um novo texto e transformei o real. Escolhi. E sempre que escrevo, sempre que decido romper essa infinidade de imagens e conceitos dentro de mim, liberto-me um pouco mais, escolho ser um pouco mais livre. Sempre que escrevo, transformo-me e transformo o que me rodeia. O desassossego mantém-se, o nó não se desenlaça por completo. Mas é esse o meu ofício, o nosso ofício: transformar desassossego em liberdade através do acto criador.

A arte é a alquimia do real. Por isso ela é tão vital à vivência humana e pela mesma razão é tão perseguida. A arte liberta pelo seu poder transformador, por possibilitar ao mundo mais escolhas. E nós, que estamos aqui porque criamos, que estamos aqui porque queremos escolher, que estamos aqui porque sabemos que a arte é uma oportunidade de evolução, somos quem zela pela liberdade que o acto criador doa ao mundo.

Lisboa, 4 de Outubro de 2014

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