terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O círculo

Existe um círculo no chão desenhado a giz e uma criança que brinca lá dentro. Essa criança sou eu. O céu exibe o rubor de um entardecer de outubro e nenhuma ave abraça o chão com as asas. Todas as aves dormem em árvores ocas e grutas sem som. Uma serpente entra no círculo e a criança olha-a de frente. Há nos olhos da criança o fogo indígena de quem dá sinal que existe. A serpente rasteja sobre o giz desenhado no chão e já não existe o branco do círculo, apenas as escamas de uma pele com fome. O eterno abraço da morte. Os olhos da criança não queimam mais, apagou-se o fogo. E do abraço da serpente emergem farpas, as mandíbulas de quem é mais forte que nós.

As serpentes são lanças que nos furam.


Alcanhões, 23 de Dezembro de 2014 – 13h30m

3 comentários:

  1. Um texto fantástico, Samuel!
    Que o ano de 2015 seja Bom e com muita Poesia.
    Beijos.

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  2. Por vezes há que pular o círculo, para que a criatividade extravase como vulcão incandescente... Bom texto! Um ano de 2015 repleto de harmonia e poesia. Maria Oliveira

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  3. Graça Pires esta enorme poetisa deu-me hoje a conhecer um dos seus poemas no seu Blogue Ortografia do Olhar!
    Genial o poema que ela partilhou, assim com este belíssimo texto!
    Parabéns!
    Beijo.

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