quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Porquê a Lusofonia?

Lido na Casa do Brasil, em Santarém,
por ocasião do encontro "Conversas no Brasil - Lusofonia"

Sou português e falo português. Certamente tenho ascendência judaica ou moura, dada a minha fisionomia e a possível proveniência dos nomes que a família me deu. Nos genes, ainda devo ter a marca dos romanos, dos celtas e dos lusitanos. Dos fenícios e dos vikings. Sou, eu mesmo, uma mistura de gente, de línguas e de conceitos, como a maioria dos portugueses e dos que se expressam em Português. Sou miscigenado, múltiplo.

O Português é língua oficial em mais de oito países e tem presença em todos os continentes do mundo. Quem fala Língua Portuguesa sabe que cada palavra que profere é herdeira de uma história de expansão e conquista, de morte e recomeço, mas também de tolerância, miscigenação e evolução. Hoje, o Português é a prova em como os povos podem seguir um caminho juntos, ainda que partilhando um passado de perdas e de dor. A Língua Portuguesa representa o que desejo para todos os povos do mundo, a possibilidade de identidades tão díspares encontrarem um espaço comum de partilha, comunhão, entendimento e perdão.

Os falantes de Português são, para mim, a expressão máxima do humano cosmopolita, miscigenado, tolerante e evoluído, de alguém que já não busca segregar o outro e o estranho, mas acolhê-lo, integrá-lo e torná-lo próximo. Têm a capacidade de se misturar com o novo e de se tornarem, eles mesmos, em algo que não existia até então. É assim desde o início e assim se mantém. Há uma recriação constante da Língua e dos conceitos culturais, tão fundamentais para a formação do ser enquanto indivíduo. O encontro entre os vários falantes de Português, oriundos de culturas tão várias, de paisagens tão diferentes, possibilitou o nascimento de um novo homem, um homem que pertence não a um país, a uma pátria, mas a uma Língua, a uma mátria, e que, por isso, pertence ao mundo. Já não é um lugar físico que o aprisiona, ele pertence a esse não-lugar da Língua, é livre, e por isso se recria e se transforma a cada momento. É do mundo. Mistura-se, cria e expande-se. É a expressão máxima da evolução humana, aquilo que sonho para todos os povos da Terra. E assim o mundo se vai transformando num lugar melhor. Como um todo. Miscigenado, múltiplo.

Porquê falar de Lusofonia? Se atentarmos bem, fora todos os vícios políticos e económicos governamentais, que em nada representam a expressão dos povos que controlam, bem pelo contrário, os falantes de Português são aquilo que desejo para o futuro da humanidade: que cada indivíduo possa encontrar no estranho um amigo. Afinal, há exemplo melhor da nossa condição humana do que procurar no outro algo que nos aproxime e nos una?

Santarém, 22 de Novembro de 2014

1 comentário:

  1. Caro poeta, um belo texto que para mim, descendente de madeirenses e terceira geracao nascida em Angola, vem ao encontro da minha cultura miscegenada entre a Europa e a África.
    Gostava de fazer parte de uma futura actividade lusófona que venha a organizar.

    Abracos ou como se diz em Angola: kandandu.
    N. Ferreira

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