Lido na Casa do Brasil, em Santarém,
por ocasião do encontro "Conversas no Brasil - Lusofonia"
Sou
português e falo português. Certamente tenho ascendência judaica ou moura, dada
a minha fisionomia e a possível proveniência dos nomes que a família me deu. Nos
genes, ainda devo ter a marca dos romanos, dos celtas e dos lusitanos. Dos
fenícios e dos vikings. Sou, eu mesmo, uma mistura de gente, de línguas e de
conceitos, como a maioria dos portugueses e dos que se expressam em Português.
Sou miscigenado, múltiplo.
O
Português é língua oficial em mais de oito países e tem presença em todos os
continentes do mundo. Quem fala Língua Portuguesa sabe que cada palavra que
profere é herdeira de uma história de expansão e conquista, de morte e
recomeço, mas também de tolerância, miscigenação e evolução. Hoje, o Português
é a prova em como os povos podem seguir um caminho juntos, ainda que
partilhando um passado de perdas e de dor. A Língua Portuguesa representa o que
desejo para todos os povos do mundo, a possibilidade de identidades tão
díspares encontrarem um espaço comum de partilha, comunhão, entendimento e
perdão.
Os
falantes de Português são, para mim, a expressão máxima do humano cosmopolita,
miscigenado, tolerante e evoluído, de alguém que já não busca segregar o outro
e o estranho, mas acolhê-lo, integrá-lo e torná-lo próximo. Têm a capacidade de
se misturar com o novo e de se tornarem, eles mesmos, em algo que não existia
até então. É assim desde o início e assim se mantém. Há uma recriação constante
da Língua e dos conceitos culturais, tão fundamentais para a formação do ser
enquanto indivíduo. O encontro entre os vários falantes de Português, oriundos
de culturas tão várias, de paisagens tão diferentes, possibilitou o nascimento
de um novo homem, um homem que pertence não a um país, a uma pátria, mas a uma
Língua, a uma mátria, e que, por isso, pertence ao mundo. Já não é um lugar
físico que o aprisiona, ele pertence a esse não-lugar da Língua, é livre, e por
isso se recria e se transforma a cada momento. É do mundo. Mistura-se, cria e
expande-se. É a expressão máxima da evolução humana, aquilo que sonho para
todos os povos da Terra. E assim o mundo se vai transformando num lugar melhor.
Como um todo. Miscigenado, múltiplo.
Porquê
falar de Lusofonia? Se atentarmos bem, fora todos os vícios políticos e
económicos governamentais, que em nada representam a expressão dos povos que
controlam, bem pelo contrário, os falantes de Português são aquilo que desejo
para o futuro da humanidade: que cada indivíduo possa encontrar no estranho um
amigo. Afinal, há exemplo melhor da nossa condição humana do que procurar no
outro algo que nos aproxime e nos una?
Santarém, 22 de Novembro de 2014