Lido na Universidade Livre de Bruxelas
por ocasião da abertura das "Jornadas da Literatura Portuguesa"
do Instituto Camões e da Embaixada de Portugal em Bruxelas
a 26 de Novembro de 2014
por ocasião da abertura das "Jornadas da Literatura Portuguesa"
do Instituto Camões e da Embaixada de Portugal em Bruxelas
a 26 de Novembro de 2014
Existe
um lugar em mim inacessível ao outro. É onde me resguardo da toxicidade do
mundo, numa concha lisa e branca, quase transparente. Nunca alguém vislumbrou esse
lugar vital e limpo, onde haikus se desdobram das árvores como flores e o céu,
de tão claro, é um véu de luz azul e diáfana. Ali, a vida emerge a cada
movimento da Terra, deífica e depurada. É o meu cais. Guardo-o dentro de paredes
invisíveis e maciças, intransponíveis. Posso estar sob o olhar do mundo, mas
inacessível. E quem me vê não entende porque me envolvo nesse silêncio, nessas
águas plácidas, puras e distantes da mundanidade. É ali que eu sou.
Simplesmente sou.
Quero
vivenciar a essência, a verdade, a superfície é-me insuficiente. Essa essência,
essa verdade, reside na sacralidade da vida, na noção de que cada gesto, cada
pensamento, é um milagre. Naquele lugar em mim, eu toco essa pureza e
simplesmente sou, simplesmente vivo esse milagre. Do silêncio, da luz e das
águas. Ali eu sou. Mas o mundo não me permite ser fora desse lugar, não me permite
viver na essencialidade. Confunde-se a pobreza do superficial com a
profundidade do simples. Sou incapaz de viver em águas turvas, quando a minha
alma é irmã das águas limpas e livres dos rios.
Hoje
mesmo, vou repousar nesse lugar essencial em mim. Passearei entre os lírios e
curvar-me-ei perante o vento, qual bambu que se baloiça e dança, dança... Ali, esperarei
o dia de voltar à Terra para tentar, novamente, que todos vejam essa beleza
líquida que eu vejo. Que as águas possam limpar-nos por dentro e que os nossos
olhos se abram para a verdade. Sei que o dia chegará, é o meu desejo. Até lá,
esperarei, aqui, neste lugar essencial.
Lisboa, 13 de Março de 2014 – 11h06m