Existe
um círculo no chão desenhado a giz e uma criança que brinca lá dentro. Essa
criança sou eu. O céu exibe o rubor de um entardecer de outubro e nenhuma ave abraça
o chão com as asas. Todas as aves dormem em árvores ocas e grutas sem som. Uma
serpente entra no círculo e a criança olha-a de frente. Há nos olhos da criança
o fogo indígena de quem dá sinal que existe. A serpente rasteja sobre o giz
desenhado no chão e já não existe o branco do círculo, apenas as escamas de uma
pele com fome. O eterno abraço da morte. Os olhos da criança não queimam mais,
apagou-se o fogo. E do abraço da serpente emergem farpas, as mandíbulas de quem
é mais forte que nós.
As
serpentes são lanças que nos furam.
Alcanhões, 23 de Dezembro de 2014 – 13h30m