terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O círculo

Existe um círculo no chão desenhado a giz e uma criança que brinca lá dentro. Essa criança sou eu. O céu exibe o rubor de um entardecer de outubro e nenhuma ave abraça o chão com as asas. Todas as aves dormem em árvores ocas e grutas sem som. Uma serpente entra no círculo e a criança olha-a de frente. Há nos olhos da criança o fogo indígena de quem dá sinal que existe. A serpente rasteja sobre o giz desenhado no chão e já não existe o branco do círculo, apenas as escamas de uma pele com fome. O eterno abraço da morte. Os olhos da criança não queimam mais, apagou-se o fogo. E do abraço da serpente emergem farpas, as mandíbulas de quem é mais forte que nós.

As serpentes são lanças que nos furam.


Alcanhões, 23 de Dezembro de 2014 – 13h30m