sábado, 11 de julho de 2015

As sombras venceram

As sombras venceram.
Nasci numa geração com o olhar e o pensamento escravizados, uma geração hipnotizada e sonolenta que não se levanta nunca. Uma geração que adora a barbárie do consumo e presta culto aos senhores que a encarceram. Uma geração que desconhece quem é. Os ritos sociais são tantos, a obrigação de cumprir as agendas que alguém ditou, as distracções encenadas para que a ilusão prevaleça…
As sombras venceram.
Não sinto que pertença a essa geração em que nasci. Não, não pertenço. Sou do mundo antigo. E do futuro. Do tempo em que as luzes valem mais que a escuridão, mesmo que possamos vê-las, apenas, entre as brechas que vão minando as trevas. Sou desse lugar, agora longínquo, em que a luz é a verdade e liberta. Não, não sou deste tempo em que o que é visível é mentira, em que nos cegam com luzes fictícias, tóxicas, e toda uma geração insiste em morrer dentro da caverna de que Platão falou. Morrer inerte. Morrer sem se questionar porquê.
As sombras venceram.
Basta olhar. Adora-se a morte, a violência, adora-se o ego e a privação. A liberdade ainda não existe. Não aqui. Ainda espero que se cumpram os tempos dos profetas, os tempos de quem viu além das sombras e das luzes, de quem viu além, para além. E hoje ninguém vê, ninguém vê. Quem se detém a admirar a semente a eclodir? Quem contempla o vôo das aves, as copas das árvores que se baloiçam, os olhos do lince? Quem se demora diante da vida?
As sombras venceram.
E mesmo assim continuo a cantar. Eros não me abandonou e ainda guardo o fogo de Héstia entre as mãos. Pela escuridão vou caminhando, carrego a chama para me orientar o caminho. Presto culto ao bruar das ondas, às formas diáfanas da manhã, às luzes, às luzes que ninguém vê, às luzes que os antigos cantaram e que nos esperam lá, no futuro. Sim, continuo a cantar, à espera, e sob um manto invisível sigo em frente. As sombras não me vêem, mas eu vejo-as; domino-as. E sigo em frente. Sim, em frente, à espera que se juntem a mim. Rumo à luz. Rumo à liberdade. Rumo ao futuro.


Alcanhões, 11 de Julho de 2015 - 14h50

1 comentário:

  1. Sensacional primo, :) como é possível tanto entendimento da vida q tens com tão tenra idade?! Simplesmente uma verdadeira inspiração... Há muito q não lia algo tão profundo e tão verdadeiro. Parabéns

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