quarta-feira, 15 de julho de 2015

[enquanto o sino diz à vila inteira]

enquanto o sino diz à vila inteira
que no relógio da torre é uma hora da tarde
enquanto os pratos descem sobre a mesa
e o vapor de água que ascende do almoço
turva o espaço da cozinha
enquanto o gato boceja e se estica por querer mais sardinhas
enquanto o pivot arrota palavras para nos distrair
e comemos imagens horrendas entre as colheradas que damos na sopa
enquanto os homens que aparecem na televisão
        que gesticulam como maestros de uma orquestra triste
se iludem com discursos e sorrisos decalcados na cara
       como as máscaras do baile de carnaval
enquanto se promulgam e discutem leis estúpidas
        como aquela que proíbe que as pessoas sejam felizes
        ou como aquela que protege as pessoas muito infelizes
enquanto se olham as horas do relógio da torre
        não, do pulso
para ter a certeza se faltam mesmo dois minutos para sair do escritório
e ir a correr para casa para foder com quem lá estiver nesse dia
enquanto as mulheres fazem coisas de mulheres e os homens fazem coisas de homens
        mulher não diz palavrões e homem não chora nunca
        homem pode arrotar e mulher tem de falar francês
porque foi sempre assim e é tradição
enquanto o sino diz à vila, outra vez, as horas do relógio da torre
e que a terra gira e que o sol gira e que a galáxia gira e que o universo gira
e que todos giramos
uma criança atravessa a estrada de asfalto
descalça
lá, longe, onde nenhuns olhos chegam
para justificar o porquê e o como de ser assim

uma criança atravessa a estrada de asfalto
descalça
e traz nos braços um livro
que encontrou no lixo da ajuda humanitária

uma criança atravessa a estrada de asfalto
descalça
e traz nos braços um livro
para com ele salvar o mundo

Alcanhões, 15 de Julho de 2015 – 14h15m

2 comentários:

  1. Um poema para ler, reler e reler e sair em silêncio...
    Um beijo, Samuel.

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  2. Enquanto tão bem descreves os sentires do cotidiano, uma criança faz parar a minha escrita, assim!

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