terça-feira, 25 de agosto de 2015

Do lodo nasce a flor de lótus

Penso a poesia como um exercício que transforma o que é impuro e podre na mais perfeita expressão de beleza. É um ofício alquímico. O poeta sabe que o poema é o resultado de uma metamorfose, é o fruto da árvore. O antigo mantra budista, om mani padme hum, encerra esse mistério transformador. Do lodo nasce a flor de lótus. A beleza emerge do que é horrendo; para existir, ela precisa de suporte. O poeta é um depurador, assim como a semente do lótus. Ele selecciona, filtra, alimenta-se e leva a que ascenda o que outrora era impuro. Como resultado dessa depuração, nasce a beleza, nasce a poesia, nasce a flor. A poesia é o lótus que floresce das águas escuras e estagnadas, a afirmação mais subtil de que a vida prospera sempre. Ela confirma que, por mais terrível e sombrio que seja o chão que pisamos, haverá sempre delicadeza e beleza. Lembra-nos que acreditar unicamente no que é terrível e sombrio fortalece a ilusão que nos hipnotiza. O lodo existe, sim, mas é dele que provém a flor. Porque a verdade é somente esta. Om mani padme hum.


Alcanhões, 25 de Agosto de 2015 – 19h19m

2 comentários:

  1. Magnífico, Samuel!
    É verdade: "Da lama nasce a flor de lótus".
    Um beijo.

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  2. Também entendo a poesia como um banho de purificação. Excelente texto e reflexão.

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