sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Alice no País das Maravilhas

porque ser gente já não é critério
despedaçar corpos é missão de quem governa
porque os orçamentos ordenam
porque há prazos e compromissos e tratados e cimeiras
porque tem de se cumprir, obedecer como um exército
porque se vive em guerra de máquinas e egos e ilusões
porque há que produzir cada vez mais para se ser ainda melhor
e mais e mais e mais
ainda melhor que o outro e a outra e aquele que nem nunca vi mas que quero imitar
porque há que comer tudo para perdurar
vendo corações a bom preço, gritam uns
vendo fígados e pernas
e respondem os ávidos, não quero pernas, quero cabeças
cortem-lhe a cabeça, diria a rainha de copas, da Alice
cortem-lhe a cabeça
cortem-lhe a cabeça
cortem-lhe o braço e os pés, cortem-lhe a língua, os dedos
cortem tudo, quero tudo
gritam os senhores da economia
as rainhas de copas deste tempo amargo e escuro
sem jardins e chapeleiros loucos, chá, canções e trava-línguas
aqui reinam os bárbaros, a gente que veio para acabar com o homem livre

quem dera que tudo não passasse de um sonho surrealista
mas não, não vamos acordar

Alcanhões, 16 de Outubro de 2015 – 12h25m

3 comentários:

  1. Neste teu poema-grito pressinto que ainda és um sonhador, Samuel...
    Um beijo.

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  2. O capitalismo selvagem (dito neo-liberal) no seu melhor...
    Excelente, caro Samuel.
    Um abraço.

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