Lembro-me
de os ver chegar a minha casa, no Outono de 2001. Traziam pouca coisa. As
roupas no corpo e uma mala de viagem. Eram quatro homens, ainda me lembro dos
seus nomes. Alexandru, Florin, George, Marius. Quatro homens. Quatro homens
romenos acabados de chegar à minha vila para trabalhar na empresa de construção
civil do meu pai. Vi-os a sair de uma carrinha azul, larga, de vidros fumados.
Lembro-me de não gostar dos vidros fumados, nunca gostei muito do que é opaco,
do que não permite a luz entrar. Hoje sei que os vidros serviam para lhes
proporcionar um maior conforto e privacidade, afinal acabavam de atravessar a
Europa, vindos do norte da Roménia naquela carrinha azul, talvez esperando que
ela, por ser azul, lhes desse um pouco mais de céu e voo no tempo em que
estariam em Portugal. Um pouco mais da Europa com que sonhavam, da Europa com
que todos sonhamos.
Não
me lembro de quem partiu a decisão de os acolher cá em casa, se do meu pai, se
da minha mãe, se de ambos. Sei que se decidiu que ficariam cá enquanto a sua
situação legal não estivesse regularizada e até terem uma casa com melhores
condições para viver. Não tinham outra opção além de ficarem connosco, a
verdade é essa. E percebemos isso. Permitir que ficassem era a única decisão
que dignificava aqueles seres humanos. O meu pai sempre teve mãos generosas e
compreendo que a minha mãe fosse sensível à história daqueles quatro homens, ao
ponto de não fazer do cuidado do meu irmão, que acabara de fazer cinco anos, um
impedimento. O meu avô Manuel, pai da minha mãe, foi emigrante em Lyon, de 1973
a 1974. Dormia num contentor, sujeito ao frio, à rigidez da época e às saudades
da família. Acredito que a minha mãe, ao ver aqueles quatro homens a entrar-lhe
em casa, recordou esse tempo de ausência do pai e o medo de que algo de mal lhe
acontecesse. Pois não eram apenas quatro homens que acabavam de chegar e ela
sabia. Eram pais e mães, irmãos e irmãs, mulheres, filhos, filhas, eram todos
os que tinham ficado para trás.
Preparámos
o anexo da nossa casa para os acolher. Dormiam em divãs, tinham um fogão, uma
lareira, um frigorífico, uma casa-de-banho. Era pouco para quatro pessoas, eu
sei. Era o que tínhamos para dar. O meu pai ajudou-os com a documentação para o
visto, para poderem trabalhar em Portugal. Logo, logo os contratou e ajudou-os
com o ofício de pedreiro. Nenhum deles conhecia o ofício. Ensinámo-los a falar
a língua, levámo-los a conhecer alguns locais onde costumávamos passear,
comemorámos aniversários juntos, sentámo-los à nossa mesa. Tratámo-los como se
fossem da família. O Alexandru e o Marius não tinham trinta anos, sequer. O
George talvez tivesse quarenta, quase cinquenta. O Florin, pouco mais de vinte.
Era um miúdo.
O
Florin foi quem ficou mais tempo cá em casa. Os primeiros a sair foram o
Alexandru e o Marius. As mulheres de ambos, irmãs, vieram para Portugal, e os
quatro foram viver para uma casa no cimo da vila. O George também acabou por
sair. O Florin foi ficando, para os meus pais era como um filho. Ficou cerca de
dois anos. E também ele saiu. Voaram. O Marius foi o último de quem tivemos
notícias. Regressou à Roménia e vive em Bucareste, trabalha na área em que é
formado, contabilidade. Regressou com a mulher e a filha, que nasceu cá. Às
vezes ainda nos telefona. No Natal. Ainda falam português. A minha mãe sempre
disse que o Marius voltaria para a Roménia assim que tivesse oportunidade, acho
que via nele um pouco do meu avô Manuel, que foi sempre tão ligado à sua terra,
ao seu país. Lembro-me de ver o Marius sentado no degrau do anexo, depois de um
dia de trabalho, a chorar. Talvez fosse pelas dores do ofício, pela condição de
imigrante, por estar longe de casa. Disse-nos que chorava com saudades da
mulher. Eu tinha onze anos. E não me esqueci.
É
por não esquecer que não acredito na Europa dos tratados, das cimeiras ou dos
decretos, onde as lógicas economicistas vigoram em detrimento dos valores
humanitários, onde se perpetua um pensamento em que existem europeus de
primeira e europeus de segunda e terceira, onde servimos de fantoches em favor
de interesses que nos são alheios e prejudiciais. Vive-se numa Europa cada vez
mais robotizada, vestida de fato e perfumada, indiferente ao que acontece no
mundo. Essa Europa não é a minha, essa Europa não me representa. Quero a Europa
vestida de branco e azul, princesa, emotiva, enamorada por um touro que é um
deus. A Europa humana, a Europa real. Pois a Europa existe na individualidade
de cada europeu. Na irmandade, no amor, no calor dos lares. Foi aí que a
aprendi, no lar, em casa, abrindo as portas a quem precisava de ajuda.
Alcanhões, 21 de Abril de 2015 – 20h11m