enquanto
o sino diz à vila inteira
que
no relógio da torre é uma hora da tarde
enquanto
os pratos descem sobre a mesa
e
o vapor de água que ascende do almoço
turva
o espaço da cozinha
enquanto
o gato boceja e se estica por querer mais sardinhas
enquanto
o pivot arrota palavras para nos distrair
e
comemos imagens horrendas entre as colheradas que damos na sopa
enquanto
os homens que aparecem na televisão
que gesticulam como maestros de uma
orquestra triste
se
iludem com discursos e sorrisos decalcados na cara
como as máscaras do baile de carnaval
enquanto
se promulgam e discutem leis estúpidas
como aquela que proíbe que as pessoas
sejam felizes
ou como aquela que protege as pessoas
muito infelizes
enquanto
se olham as horas do relógio da torre
não, do pulso
para
ter a certeza se faltam mesmo dois minutos para sair do escritório
e
ir a correr para casa para foder com quem lá estiver nesse dia
enquanto
as mulheres fazem coisas de mulheres e os homens fazem coisas de homens
mulher não diz palavrões e homem não
chora nunca
homem pode arrotar e mulher tem de
falar francês
porque
foi sempre assim e é tradição
enquanto
o sino diz à vila, outra vez, as horas do relógio da torre
e
que a terra gira e que o sol gira e que a galáxia gira e que o universo gira
e
que todos giramos
uma
criança atravessa a estrada de asfalto
descalça
lá,
longe, onde nenhuns olhos chegam
para
justificar o porquê e o como de ser assim
uma
criança atravessa a estrada de asfalto
descalça
e
traz nos braços um livro
que
encontrou no lixo da ajuda humanitária
uma
criança atravessa a estrada de asfalto
descalça
e
traz nos braços um livro
para
com ele salvar o mundo
Alcanhões, 15 de Julho de 2015 – 14h15m