Penso
a poesia como um exercício que transforma o que é impuro e podre na mais
perfeita expressão de beleza. É um ofício alquímico. O poeta sabe que o poema é
o resultado de uma metamorfose, é o fruto da árvore. O antigo mantra budista,
om mani padme hum, encerra esse mistério transformador. Do lodo nasce a flor de
lótus. A beleza emerge do que é horrendo; para existir, ela precisa de suporte.
O poeta é um depurador, assim como a semente do lótus. Ele selecciona, filtra,
alimenta-se e leva a que ascenda o que outrora era impuro. Como resultado dessa
depuração, nasce a beleza, nasce a poesia, nasce a flor. A poesia é o lótus que
floresce das águas escuras e estagnadas, a afirmação mais subtil de que a vida
prospera sempre. Ela confirma que, por mais terrível e sombrio que seja o chão
que pisamos, haverá sempre delicadeza e beleza. Lembra-nos que acreditar
unicamente no que é terrível e sombrio fortalece a ilusão que nos hipnotiza. O
lodo existe, sim, mas é dele que provém a flor. Porque a verdade é somente
esta. Om mani padme hum.
Alcanhões, 25 de Agosto de 2015 – 19h19m