porque
ser gente já não é critério
despedaçar
corpos é missão de quem governa
porque
os orçamentos ordenam
porque
há prazos e compromissos e tratados e cimeiras
porque
tem de se cumprir, obedecer como um exército
porque
se vive em guerra de máquinas e egos e ilusões
porque
há que produzir cada vez mais para se ser ainda melhor
e
mais e mais e mais
ainda
melhor que o outro e a outra e aquele que nem nunca vi mas que quero imitar
porque
há que comer tudo para perdurar
vendo
corações a bom preço, gritam uns
vendo
fígados e pernas
e
respondem os ávidos, não quero pernas, quero cabeças
cortem-lhe
a cabeça, diria a rainha de copas, da Alice
cortem-lhe
a cabeça
cortem-lhe
a cabeça
cortem-lhe
o braço e os pés, cortem-lhe a língua, os dedos
cortem
tudo, quero tudo
gritam
os senhores da economia
as
rainhas de copas deste tempo amargo e escuro
sem
jardins e chapeleiros loucos, chá, canções e trava-línguas
aqui
reinam os bárbaros, a gente que veio para acabar com o homem livre
quem
dera que tudo não passasse de um sonho surrealista
mas
não, não vamos acordar
Alcanhões, 16 de Outubro de 2015 – 12h25m