ao Rio Doce
Em
criança, sempre me vi como um espírito nascido da Natureza, gerado para a
guardar. Poderia dizer que me sentia próximo dessas divindades que povoam os
bosques e as florestas, fadas, elfos, trasgos e todo o tipo de criaturas
mitológicas. Sabia, de alguma forma, que não era a minha condição física que me
separava dos reinos invisíveis dos espíritos que vigiam a Terra. Também eu era
um vigilante, de olhar aberto para o mundo. Vigiava as oliveiras dos campos
ribatejanos, onde brincava, sempre de cajado na mão, ou dava de comer às
formigas que faziam eclodir pequenas crateras da terra, nas traseiras da minha
casa. Protegia os ninhos dos pássaros, ainda hoje os protejo, e queria acolher em
casa tudo o que era animal de estimação. Cresci com o privilégio de viver onde
há oxigénio, onde se bebe água das fontes e dos poços, onde se come o que as hortas
dão. E cedo percebi que era realmente um privilégio viver assim, tão próximo
dos quatro elementos, num mundo de cidades monstruosas que nos devoram, de
fábricas e máquinas que envenenam o ar e as águas, de ritmos que vampirizam o
sangue do planeta. Um mundo cada vez mais profanado, distante do que é subtil,
etéreo e belo. Talvez tenham sido as fadas a fazer com que eu nascesse perto
dos reinos onde habitam, para que eu pudesse crescer sabendo ouvi-las e onde encontrá-las,
para que eu pudesse crescer com consciência do caminho que leva ao futuro, sabendo
que a Terra é a vida materializada. Talvez as fadas me tenham ensinado tudo
isto para que eu o lembrasse aos homens, para que o elo que existe entre as
vidas que habitam o planeta não se quebrasse. Afinal, escrevo o que outros
escreveram antes de mim, não trago nada de novo. Escrevo o que teima ser
esquecido.
A
Terra é a própria vida. É esse o elo que nos rege. Mas a única espécie dotada
de intelecto é também a única empenhada em quebrar a ancestralidade dos pactos.
Com que direito privamos da vida alguém que vive antes de nós? Com que direito
dizemos aos peixes que não poderão voltar a nascer nas águas onde vivem desde o
início do mundo? Que ousadia é essa que nos leva a ferir os mares e as
florestas? Que humanos somos nós, essa palavra que usamos arrogantemente para
nos definir, se insistimos em perpetuar a barbárie sobre as terras que pisamos?
Que tempos de luz, estes, em que domina a escuridão?
Dizem-me
as fadas que nunca obterei respostas, já findou o tempo das perguntas. Dizem-me
elas que o tempo, agora, é de quem caminha, de quem ainda não esqueceu por onde
passou o fio de Ariadne e sabe como sair do labirinto. É para aí que eu vou,
onde não prosperam monstros à espera de sacrifícios. Caminharei pelos reinos
invisíveis que nos levam ao futuro, crente de que não estou só neste ofício que
é vigiar a Terra.
Alcanhões, 23 de Novembro de 2015 –
23h43