segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 1] Casa

[Em 2015, foi-me atribuída a Bolsa Jovens Criadores, pelo Centro Nacional de Cultura. Parte do projecto consiste em passar o mês de Janeiro na aldeia de Pinheiro (Carregal do Sal, Viseu), de onde são originários os meus antepassados. Decidi ir escrevendo alguns textos sobre a experiência de estar na aldeia, que publicarei aqui com a nota "Diário de Bordo".]

Hoje, estive diante da primeira casa onde viveram os meus avós maternos. Está abandonada há muitos anos. Foi lá que a minha mãe nasceu. Também viveram noutra casa, que entretanto foi restaurada e onde vive outra família. A aldeia está repleta de lugares ligados aos meus antepassados. No lugar onde estou a escrever, viveram os meus trisavós. A casa antiga já não existe, mas existe o lugar. Aqui, na aldeia, os lugares permanecem. E enquanto o lugar existir, existe a memória da tradição.

Somos feitos de muitas coisas, de lugares, de casas, de terras. Somos feitos de memórias, de histórias e de nomes. A primeira casa onde viveram os meus avós está abandonada e, em breve, ficará em ruínas, como outras casas da aldeia de Pinheiro e de tantas aldeias deste mundo. Mas não é a ruína que lhe rouba a condição de casa. Não. Enquanto houver alguém que recorde a casa como casa, a ruína não se instalará.

Olho para as casas como gente. Uma casa habitada é uma casa viva, cumpre o seu propósito de casa. Mas também há vida na ruína. Uma casa em ruínas ainda é testemunho de que alguém por ali passou. Tem memória e ainda vive. É um pouco como nós, que damos testemunho da nossa linhagem, dos nossos ancestrais. Somos as ruínas que ficam da casa dos nossos pais. Mas também somos colunas que edificam um novo tempo. Os novos rebentos da árvore que recordam os nós de onde brotaram.

Pinheiro (Carregal do Sal), 4 de Janeiro de 2016 – 18h31m


2 comentários:

  1. És um lindo, e novo rebento, de uma frondosa árvore... Beijares e abraçares

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  2. Também gosto de escrever sobre memórias, venham elas de algo edificado ou de algo sensorial... Talvez uma das razões por que registo data, hora e local do escrito.
    Gostei imenso de ler.
    Parabéns pela Bolsa.
    :)

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