sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 11] A Casa do Passal

Hoje, as minhas primas levaram-me a conhecer um pouco do distrito. Saímos de Pinheiro depois de almoço com Viseu como destino final, uma vez que não conhecia a cidade. Deu para acentuar ainda mais a minha ideia de que, do ponto de vista paisagístico, o planalto beirão é mesmo privilegiado. De um lado, vê-se a Serra da Estrela, ou os Montes Hermínios, como gosto ainda de dizer. Do outro lado, a Serra do Caramulo. Para não falar das margens do Rio Dão, ostentando enormes penedos, das pequenas pontes sobre as ribeiras ou das florestas de carvalhos, que cobrem os caminhos com tapetes de folhas recortadas. Em alguns lugares, não se sente a marca do homem sobre o tempo, como se tudo estivesse intacto desde que a Terra é Terra.

Mas a beleza do planalto beirão vai muito além da paisagem natural. As vilas e aldeias que se encontram pelo caminho, onde abundam casas de pedra, fontes, solares e camélias nos jardins, fazem com que seja fascinante descobrir esta região. Na estrada que apanhámos para Viseu, depois de Carregal do Sal, virámos para Cabanas de Viriato. Conhecia a vila só de nome, mas era, há muito tempo, uma das povoações daqui que eu queria visitar. Seguimos por ruas estreitas e ziguezagueantes, eu maravilhava-me com os solares que íamos encontrando, e depois de subirmos uma estrada, reconheci-a de imediato, ao longe: a Casa do Passal, a casa onde viveu Aristides de Sousa Mendes.

Aristides de Sousa Mendes é, para mim, uma das pessoas que mais admiro. Se eu alimentasse a ideia de herói, Aristides seria alguém que integraria essa condição. Durante a II Guerra Mundial, salvou mais de trinta mil vidas. Admiro-o pelo acto de consciência, pela forma como fez frente às ordens de Salazar e por, mesmo ameaçado, manter a firmeza a que a humanidade o obrigou. Seria difícil explicar a emoção de estar diante da casa onde viveu, uma casa que assistiu aos seus últimos dias, marcados pelos efeitos da punição que Salazar decretou, já que Aristides se recusara a cumprir as ordens do regime, mas também uma casa que, hoje, é símbolo dos homens que resistem à barbárie em nome da vida humana. Em breve, será ali instalado um museu, já que a casa tem vindo a ser restaurada. E a emoção foi ainda maior por saber que a Casa do Passal também é um pouco minha, também eu a ajudei a reconstruir. Em Maio de 2013, assisti a um concerto de música clássica no pequeno auditório do CCB, em Lisboa, cujos fundos reverteram para as obras que, hoje, vi quase concluídas. Foi um momento belíssimo, senti-me honrado por poder contribuir, mas lembro-me de ter pensado, durante o concerto, que se estivéssemos em Londres, Paris ou Berlim, o pequeno auditório do CCB teria esgotado, a comunidade ter-se-ia envolvido mais. Naquele dia, metade dos lugares estavam vagos.

Ver a casa, hoje, trouxe-me esperança. Esperança nos homens e mulheres que fazem o bem, esperança no poder da memória como farol para o futuro, esperança de, um dia, ver preenchidos os lugares que ficaram vagos.


Pinheiro (Carregal do Sal), 15 de Janeiro de 2016 – 20h20

2 comentários:

  1. Gosto bastante das últimas emoções:

    "Ver a casa, hoje, trouxe-me esperança. Esperança nos homens e mulheres que fazem o bem, esperança no poder da memória como farol para o futuro, esperança de, um dia, ver preenchidos os lugares que ficaram vagos".

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  2. esperança sim! Essa a palavra e o sentimento!! fico tão emocionada :)

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