sábado, 16 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 12] As almas

Acordei às sete da manhã, como habitual. Às oito horas em ponto estava em frente à casa da minha prima, para irmos caminhar. Combinara ir com ela para conhecer outras povoações vizinhas aqui da aldeia. Seguimos estrada acima, com o frio a beliscar-nos a cara, e não fomos sozinhos: a Morena, a cadela mais simpática que conheço, fez-nos companhia.

A geada cobria os campos, o sol ainda não passara a linha do horizonte, mas já era de dia. O frio da manhã gelava-nos as mãos, impelindo-nos a caminhar num passo firme e regular, para aquecermos. A Morena corria à nossa frente, antecipando o caminho que havíamos de seguir. Cruzámos bosques, ribeiras e subimos o suficiente para termos vista limpa para a Serra do Caramulo, com as copas das árvores abaixo do nosso campo de visão. Quando começámos a descer, chegámos à Póvoa da Arnosa, e foi na estrada de asfalto que comecei a vê-las, as almas.

As almas são as pequenas cruzes de pedra que aparecem nos cruzamentos e entroncamentos dos caminhos. Tenho visto muitas desde que aqui estou, em Pinheiro já vi, pelo menos, três. São mais um exemplo do culto pagão que se cristianizou. Conta-se que os caminhos que percorremos no mundo físico reflectem, também, os caminhos que percorremos no mundo espiritual, e sempre que há um encontro de caminhos, um cruzamento ou entroncamento, há que sacralizar esse encontro, por norma com uma cruz (cuja simbologia ancestral, anterior ao cristianismo, nos diz que o que está em cima é igual ao que está em baixo), para que tudo o que ali for dar vá por bem. É muito comum ver essa tradição no Norte de Portugal e na Galiza, onde em vez de cruzes latinas aparecem, regularmente, cruzes celtas, não só no encontro de caminhos, mas também sobre as portas e janelas; o princípio é o mesmo, pois a portas e janelas são entradas: a cruz santifica essa passagem, esse portal, para que apenas passe o que vier bem-intencionado. E ainda se vêem capelinhas erguidas nos cruzamentos e entroncamentos, marca da cristianização de um culto que é ainda mais antigo que o cristianismo. E compreende-se que o culto ainda resista. Conta-se que é nos cruzamentos que vão dar as almas que não ascenderam aos reinos celestes e que vagueiam pelo mundo, e que também é onde se encontram bruxas, demónios e lobisomens. Ora, há que sacralizar lugares tão permeáveis ao encontro de espíritos tão malignos, não vá alguém cair nalguma maldição inquebrável. E como ainda somos povo de percorrer caminhos, é também forma de abençoar os passos do caminhante, mantendo-o em caminho seguro e são. No caminho da luz, diria eu. No caminho do meio.


Pinheiro (Carregal do Sal), 16 de Janeiro de 2016 – 12h41m

1 comentário:

  1. Sei que aproveitas para captar toda a luz possível...
    Um beijo, Samuel.

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