terça-feira, 19 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 13] Corpo

[Aos Domingos, o Diário de Bordo migra para o Blog Bran Morrighan, que me convidou para escrever um texto semanal sobre a experiência da residência artística. O segundo texto pode ser lido aqui. Como ontem não escrevi, hoje deixo o texto que se segue.]

Ontem não escrevi, foi a primeira vez que não escrevi desde que aqui estou. Passei o dia fora de casa e, quando cheguei, ainda me sentei ao computador para escrever alguma coisa, mas adormeci em frente ao ecrã. Tenho dormido cerca de seis horas por dia, tenho explorado muito a aldeia e a região em volta e tenho-me deslocado a pé ou de bicicleta. Claro que, passado algum tempo, o cansaço instala-se e o corpo cede.

Escrever cansa e dá trabalho, são horas de pesquisa e de leitura. Escrever provoca dores musculares e nos ossos. Tenho dores nas mãos regularmente, em especial nos dedos, como os pianistas, assim como contracturas nas costas, por passar muitas horas sentado. Escrever esgota o cérebro e os olhos, pode ser causa de dores de cabeça, enxaquecas, fotofobia e falta de visão. Escrever faz fome ou tira o apetite, depende dos textos e das pessoas, e facilita a dependência do álcool e do tabaco. Escrever satura o corpo. É por essa razão que a literatura, antes de ser uma arte do intelecto, é uma arte corporal, vem do corpo. Um texto é o resultado do acto de escrever, é o resultado de um corpo em movimento, que gasta energia e que se cansa. É, afinal, como toda a arte: precisa de um corpo que crie, que faça.


Pinheiro (Carregal do Sal), 19 de Janeiro de 2016 – 15h51m

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