quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 14] O alambique

A aldeia de Pinheiro tem vindo a perder muitos dos serviços que tinha. Embora sendo uma povoação muito pequena, em tempos classificada como “lugar”, havia fornos comunitários, cafés e tabernas, uma mercearia, lagares, sapateiros, costureiras, moleiros, agricultores, pastores a alambiques para fazer aguardente. Hoje há muito pouco do que referi.

Tive oportunidade de visitar o único alambique activo na aldeia, o Alambique “O Rato”. Existe desde 1948. É um dos mais frequentados dos três alambiques do concelho de Carregal do Sal e dos poucos serviços ainda disponíveis a movimentar a aldeia, vêm pessoas de todo o distrito para produzir aguardente. A partir de Setembro, após as vindimas, disse-me o alambiqueiro que por vezes não tem mãos a medir, dado o volume de produção. Produzem mais de mil litros anualmente.

Por estar diante de um alambique tão antigo, e curioso para compreender o processo de produção, perguntei como funcionava. Existe uma fornalha a lenha, que demora cerca de quarenta e cinco minutos a aquecer. Depois da fornalha quente, coloca-se o bagaço na caldeira e espera-se que evapore, que refrigere e que liquidifique, até sair a aguardente feita, pelo condensador. É um processo que demora cerca de duas horas a estar concluído.

Com copos de vinho e jeropiga à mistura, éramos seis homens à conversa. Não foi preciso muito para me começarem a contar histórias da juventude. Ouvi como os rapazes, quando estavam na tropa, conseguiam alguns benefícios por parte dos oficiais por causa da bebida produzida na aldeia, ali mesmo, naquele alambique. Dizem eles que até vinham de fim-de-semana mais cedo, sob o compromisso junto dos oficiais de trazer a bendita garrafa de aguardente. Garrafas de cinco litros, que desapareciam em apenas uma semana, sob o maior sigilo.

Hoje, que o serviço militar já não é obrigatório, o alambique já não produz aguardente sob o pretexto de aliviar a vida dos jovens recrutas originários da aldeia, mas continua a ser um dos principais focos de captação de investimento na povoação. Que continue a produzir por muitos e longos anos.


Pinheiro (Carregal do Sal), 20 de Janeiro de 2016 – 18h28m

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