quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 15] Vozes

A chuva voltou à aldeia, forçando-me, novamente, a estar mais recolhido. Aproveitei para fazer um balanço destes últimos dias, para rever tudo o que já fiz desde que aqui estou.

Nem tudo o que tenho descoberto será usado para escrever o romance e há que ponderar bem quando se trata de decidir. Pinheiro é o cenário onde decorre a acção do livro. Por essa razão preciso de estar aqui, para conhecer bem os locais e ter um maior poder de decisão sobre quais os elementos que integrarão o livro, sobre que ruas, que lugares e que histórias evocar. O facto de esta ser a aldeia de onde é originária parte da minha família poderia levar-me a escrever sobre isso, mas não, não pretendo contar essa história, embora admita que possa vir a usar um ou outro elemento na história que quero contar. Escrever é como costurar, é como fazer uma manta de retalhos, e isso é ofício que conheço bem. Herdei-o da minha avó.

Ao olhar para as fotografias que tenho tirado, as pedras da aldeia, ao mesmo tempo que se impõem em todas as ruas com a sua fisicalidade, impõem-se também por ocultarem algo de sobrenatural, como se fossem fantasmas a falar. É ao encontro dessas vozes que tenho seguido, num confronto entre a dimensão humana e a dimensão da fantasia e questionando-me sobre a possibilidade de eu povoar a aldeia com personagens que me levem até à história que mereça ser contada, que me levem ao encontro da minha própria voz. Sei que estou a caminho, prestes a chegar.


Pinheiro (Carregal do Sal), 21 de Janeiro de 2016 – 19h40m

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