sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 16] A eira

Estive na eira dos meus tios, onde eles vivem e cultivam a terra. É de lá que colhem as favas, as batatas, as cerejas, as uvas, os nabos, as couves, os pêssegos, as alfaces, os marmelos e até kiwis. Têm cameleiras das mais variadas cores, vermelhas, brancas e rosa, dois cães e três gatos. Encontrei os meus tios na horta, é frequente encontrá-los por lá a trabalhar. Aliás, aqui é frequente ver as pessoas a trabalhar no campo. Ou estão a cultivar, ou a limpar os terrenos, ou a apanhar lenha, ou a passear o gado.

Na aldeia, a agricultura de subsistência é dominante. Quem se levanta cedo para trabalhar no campo por lá fica até ao anoitecer. Há que atar as videiras com os vimes, há que cortar as canas que cresceram junto ao ribeiro, há que plantar novas árvores de fruto, há que apanhar erva para dar ao gado, há que mudar o vinho das pipas. Há sempre muito para fazer e falta sempre tempo para fazer tudo. Dois braços só podem fazer o trabalho de dois braços e ninguém espera que outros venham fazer o que tem de ser feito. Há que cultivar a terra para que haja comida na mesa.

A linha do tempo, aqui, é diferente da linha do tempo do mundo globalizado. Não há tempo para ver televisão, embora se esteja informado, nem para ser especialista nos grandes assuntos da actualidade. Não há, sequer, essa pretensão. É-se especialista no respectivo ofício e até aí se colocam dúvidas.


Pinheiro (Carregal do Sal), 22 de Janeiro de 2016 – 21h12m

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