sábado, 23 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 17] O lobisomem

Ao anoitecer, fui ao café beber um whisky e depois voltei para casa. Não fui pelo caminho mais directo, mas sim pelo mais longo, para apreciar a noite. Ia distraído a olhar para as estrelas, até que a vi, a lua, a preparar-se para a lua-cheia. Lembrei-me de uma história da aldeia, que os antigos contam num tom sombrio e de medo. A história dos lobisomens.

Diz-se que sempre existiram e que viviam misturados com os humanos. Homens com muito pêlo eram suspeitos. Há quem afirme que, na aldeia, ainda existiam alguns, mas nunca confirmaram as suas identidades. Desconfiavam deste ou daquele homem, diziam que os viam de manhã, com pêlo na boca, mas certezas nunca houve.

Na minha família, corre uma história antiga de quando os meus tios namoravam. A minha tia estava à janela, do lado de dentro, e o meu tio nas escadas, do lado de fora, a namorar. Naquele tempo namorava-se assim. Conversavam animadamente, já passava da meia-noite. Diz-se que ouviram os cães em alvoroço e um som maligno estrada afora. Imersa nas sombras das casas, apareceu-lhes a figura de um animal de quatro patas, muito grande. Corria estrada abaixo e parou perto deles. Era um animal peludo, arrepiante, que nunca saiu da sombra da noite, não dando para vê-lo ao pormenor. Um gato que passava assanhou-se e o bicho enorme fugiu, estrada acima. A minha tia, que me contou a história, ainda hoje não sabe o que realmente viu. Para ela e para o meu tio, não havia dúvida, era um lobisomem. O certo é que não voltaram a ver o bicho, mas ainda perduram os rumores de que há homens que viram monstros nas noites de lua-cheia.

Lembrei-me desta história e corri para casa. A lua-cheia está próxima e… nunca se sabe.


Pinheiro (Carregal do Sal), 23 de Janeiro de 2016 – 19h02m

1 comentário:

  1. Também tinha uma tia que me contava histórias dos lobisomens ao deitar. E eu tinha um medo incrível...
    Um beijo, Samuel.

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