segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 18] O rural e o urbano

[Aos Domingos, o Diário de Bordo migra para o Blog Bran Morrighan, que me convidou para escrever um texto semanal sobre a experiência da residência artística. Podem ler o terceiro texto aqui. Hoje deixo o texto que se segue.]

A minha residência artística em Pinheiro tem acentuado uma ideia antiga que eu já tinha, motivada, também, por ter crescido no campo: Portugal ainda é um país rural. Refiro-me à forma como, na generalidade, a nossa sociedade se organiza, pois embora abundem cidades no nosso território, a dinâmica social assenta em bases rurais, com tudo o que isso tem de bom e de mau.

As elites urbanizadas vivem à margem dessa maioria; diria, até, que há um fosso que divide o vivência rural da vivência urbana, quer pelo discurso, quer pelas ideias, quer pelas motivações. Quem vive segundo a dinâmica de uma sociedade rural, olha para as elites urbanizadas como senhores e senhoras que usam palavras incompreensíveis, distantes da vida prática, como se lhes falassem de uma realidade muito difícil e inalcançável. Claro que há quem tenha interesse em perpetuar essa condição e quem, mesmo querendo mudar alguma coisa, acaba por criar uma distância ainda maior entre o que é rural e o que é urbano, quando se deveria estar a caminhar para uma confluência cada vez maior, para um encontro.

Claro que há aqueles que, tendo perfeita consciência do país e do povo que nele habita, usam essa condição rural em seu proveito. Têm, por norma, tudo o que querem do povo português. E prosperam, sorridentes, como se fossem reis regressados. Basta olhar a história.

Pinheiro (Carregal do Sal), 25 de Janeiro de 2016 – 17h47m

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